MORRI... E ME ARREPENDI

Por ROBERTO NAVARRO

Coluna Estrada das Lágrimas

Sempre conto histórias verdadeiras mas hoje para abordar um tema tão importante, preciso contar uma ficção, por que através dela podemos refletir um pouco sobre o suicídio.


Isabela era uma pessoa jovem, bonita como a juventude deixa as pessoas, saudável e com sonhos , como toda garota de 17 anos.


Tinha um irmão mais novo e os pais faziam o que podiam por ela. Proporcionavam o conforto necessário e quando era possível, realizavam seus desejos de garota como passeios, eletroeletrônicos enfim... o que a garotada curte hoje em dia. E assim levava a vida como toda garota de sua idade, casa, escola, passeios, namoros sem compromissos...etc...


Sonhava em ser médica e ajudar as pessoas. Gostava de estudar e se empenhava. Mas em determinado momento começou a se sentir angustiada, triste meio sem saber por que. Já não queria sair tanto no final de semana, nem namoro se interessou mais.


Ficava estudando como se fosse para preencher o tempo e ele passar mais rápido. Já não vinha tantas amigas em casa procurá-la como antes. Dividia seu tempo entre estudos na escola e seu quarto em casa onde ficava horas vendo coisas da internet. Não vamos nos ater muito aos motivos, pois como disse é uma ficção e Isabela representa sintomas de várias causas possíveis. Pode ser uma frustração com namorado ou com uma amizade.... pode ser medo de fracassar nos vestibulares... pode ser buling como tanto se fala hoje em dia... pode ser um mau relacionamento em seu lar com sua família. Vários motivos de maior ou menor grau podem ser o motivo dessa tristeza. Mas continuando... Isabela cada dia mais triste e tentava esconder dos pais e do irmão seus sentimentos.


Os pais achavam que a proximidade dos vestibulares e a adolescência poderiam ser as causas da mudança de Isabela, se preocupavam, perguntavam e ela respondia que não era nada. Aqui faço um parêntese para adolescência: que fase difícil, não? Para os pais também, pois não sabemos muito como agir as vezes .Eles não são crianças, mas também não são adultos e essa fase de transformação não deve ser só para o adolescente e sim para nós pais também.


Devemos buscar no passado nossos pensamentos quando tínhamos a idade deles, as angústias que passamos e tentar compreender sem esquecer que nesse momento estamos do outro lado. É uma fase de medo de ambos os lados pois sabemos que eles estão ficando adultos e independentes e se repreendermos temos medo de perdê-los e se soltarmos também temos o mesmo medo.


Outra vez: que fase difícil não?


Voltando a estória de Isabela vamos supor que seu drama foi a pressão que ela sentia em passar no vestibular, a sensação de fracasso ao perder um namorado para a amiga, o receio de deixar seus pais preocupados e criar uma frustração neles, já que depositaram tantas expectativas, o aumento de peso por não estar com dieta adequada ou até mesmo conflitos familiares desde infância que em dado momento desencadeia uma depressão. Hoje em dia se cria modelos de comportamentos e estéticos onde se uma pessoa não se encaixa neles, está fora. E quando se é um adulto com atitude, com clareza do que realmente importa na vida, ele nem liga para isso, mas uma adolescente querendo fazer parte de uma “tribo” e se sentir excluída isso é o fim.


Passamos agora para o dia em que Isabela tomou coragem (apesar de achar que sua coragem de viver havia acabado) e tirou sua vida! Meses antes pensava em acabar com seu sofrimento e acabar com sua vida seria sua única saída. Aquela ideia foi ficando cada vez mais forte e os maus pensamentos foram tomando conta, as justificativas foram ficando mais fortes em sua mente. Ela foi ficando tão envolvida com esse pensamento que não pensava mais em outras soluções. Não conseguia enxergar outras hipóteses. Não via sua volta a possibilidade de compartilhar seus pensamentos com alguém, por que ela deu vazão aos maus pensamentos e ficou cega diante da possibilidades. E foi assim que aconteceu... em um momento sem muito pensar, tomou veneno que havia comprado já algum tempo. Como estava sozinha em casa, se deitou e ficou ali até que a droga a consumisse...


Agora vamos à parte que me fez escrever essa história.


Após algum tempo Isabela abre os olhos se levanta e vê seu corpo estendido na cama. Fica espantada sem saber o que aconteceu. Olha ao seu redor e vê seu quarto bem arrumado, com tudo aquilo que desejava e seus pais lhe davam, seu celular top, seu aparelho de som, seus cadernos e apostilas, seu computador enfim... tudo aquilo que nos últimos tempos não dava mais valor. Em seguida seus pais chegam e a encontram daquele jeito em sua cama e ela vê e sente a dor daqueles que tanto a amavam, seu irmão entra em seguida e ela se surpreende pelo desespero notório de seu irmão que pela convivência constante nem sabia que ele a amava tanto. Olhou mais uma vez seu corpo e se achou tão bonita como nunca havia se achado frente ao espelho.


Começou a pensar nas possibilidades que teria, faculdade, mesmo que não entrasse naquele ano, as possibilidades de ser feliz, de encontrar um namorado lega, e tudo aquilo que pensava que era ruim antes foi ficando sem sentido. Notou que chegou ao extremo sem ter dado nenhuma chance a si mesma. Entendeu o sofrimento que causou para sua família que amava tanto e não tinha se dado conta do quanto amava aquela família, por que estava “cega”. Só via seu sofrimento que agora nem era tanto sofrimento assim.... ela tinha muita coisa ao seu redor, mas não enxergava.


Para o final dessa história, tanto faz... podemos optar por um final feliz onde Isabela acorda de um pesadelo e retoma sua vida feliz ou o que ela tenha feito seja verdade, assim como tantas pessoas o fazem e que não voltam para contar depois, mas acredito que você que está lendo e se sente como Isabela, poderia fazer um exercício. Imaginar sua morte e acordar “morta”.


Começar a ver ao redor, o potencial que existe em torno de você e que não há somente esse futuro que Isabela determinou. Ela em nenhum momento pensou que em poucos meses estaria dentro de uma faculdade, realizando seu sonho e que encontraria novas amizades e até um namorado e que futuramente se tornaria uma excelente profissional, independente realizando novos sonhos e seguindo sua vida lembrando que um dia esteve tão mal, mas que buscou ajuda e se refez.


Para finalizar quero concluir que temos momentos tão difíceis que não conseguimos enxergar saída, e se dermos vazão a essa “cegueira” às vezes não tem retorno.


Tenho visto muita gente em estado de tristeza e depressão por vários motivos que a nossa vida cheia de progresso está causando e criando frustrações. E as pessoas não estão conseguindo lidar com essa vida frustrada.


Não há fórmula mágica, mas sem dúvida nenhum mal perdura para sempre.... a não ser que você só enxergue isso!!!!!


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