MUSEU VIVO, O PATINHO FEIO DA MEMÓRIA CANDANGA

Atualizado: 7 de Abr de 2020

Por ALFREDO BESSOW

Por vezes interajo com pessoas que chegam sem tempo, no máximo a possibilidade de uma fuga rápida e sempre que instado sobre “o que ver” em Brasília entre uma agenda e outra, minha resposta é um mantra: Vá para o Museu Vivo da Memória Candanga para saber um pouco mais da epopeia de brasilidade que a construção da nova capital nos deu, para conhecer não como foi, mas como era e em certo sentido continua sendo esse período que foi ofuscado por sentimentos de perdas regionais e o período de governos militares que, em certo sentido, ajudou a consolidar a ideia de Brasília-Capital.


Se os visitantes pouco sabem do local, o que me deixa perplexo e assustado é quando em conversas descubro pessoas aqui nascidas ou por muito entre nós vivendo que não conhecem este espaço onde a conexão não se dá pela distância, mas pela proximidade, inclusive num certo ar de abandono com que tratamos tantas das coisas de nossa existência.


Ele não possui o charme do Catetinho, do Memorial JK, da Catedral e de tantos outros espaços muito mais glamourizados – ainda que não devidamente valorizados, inclusive pela absurda falta de material que fale deles em portarias e recepções de hotéis, da carência de tour virtual por seus acervos, pela precariedade de uma estrutura onde o turismo ainda é visto por muitos governantes como gasto e não investimento.


Confesso que não entendo...

Aprendi na convivência com distintas culturas que a abundância pode gerar nas pessoas a incompreensão da preciosidade daquilo que temos. É o caso deste espaço lindo, amplo e bucólico e que abrigou de 1957 quando foi inaugurado até 1974 quando foi desativado, o 1º Hospital de Brasília. Mantiveram-se construções originais da época, que resistem ao descaso de tantos governos que parece desejarem que tudo venha abaixo para que ali sejam erguidos prédios – visto estra em localização privilegiada, na Saída Sul, às margens da BR-040.


Tombado e transformado em Museu em 1991 é, ao lado do Catetinho, o que restou em termos de construção original, da arquitetura da época. Mas ele pode e nós precisamos que seja mais...


Na verdade, precisa ser muito mais e isso passa por uma campanha onde esse espaço deixe de ser tratado como um museu “do passado” e se insira em nosso cotidiano como aquele avô beirando os 90 e que insiste em dizer aos netos o que foi com um jeito como se ainda fosse.

Eu sei que nas casas funcionam oficinas, mas em uma delas eu considero básico que se resgate o tempo e dê aos que vivem as facilidades da internet a noção de como era a vida, os móveis, os utensílios – pratos, panelas, vitrolas, discos, aparelhos de TV, aparelhos de rádio e tudo mais. E ainda dá tempo de fazer isso, uma vez que se trata de uma cidade jovem e certamente as pessoas guardam abandonados pelos cantos, entulhando a exiguidade das moradias de hoje, objetos de uso de quem aqui chegou quando o que havia era o cerrado em seu estado nativo.

Gosto da ideia de que as pessoas sejam convocadas a fortalecer o acervo do museu, não apenas como era a mobília de uma casa, mas uma sala de aula, uma lanchonete e seu cardápio, um bar com suas mesas, um restaurante tipo Roma com seus requintes de serviços adaptados diante do vazio também de uma cultura gastronômica - mas também como era uma “jardineira”, como era um taxi ou a bicicleta de algum policial da GEB.


O que não falta é vazio, porque se a ideia de ocupar as “casas” com oficinas é importante para o cotidiano, não me parece ser apelo forte o suficiente para que as pessoas sintam-se parte daquele espaço, daquele pedaço de tempo que resiste como memória para perpetuar não quem fomos, mas quem somos.


Busco no poeta gaúcho Apparício da Silva Rillo versos que sintetizam as razões pelas quais resgatar o sentido de vida no museu é fundamental para a própria memória:


“Ser não é ter sido ou apegar-se ao veio e às raízes dos avós - é ser as ramas que brotaram deles para dar sombra aos que virão de nós”

Fotos: Alfredo Bessow

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