Não existem as Fake News: existe a true ignorance

Por ANDRE R. COSTA OLIVEIRA


"A compreensão humana não é um exame desinteressado, mas recebe infusões da vontade e dos afetos; disso se originam ciências que podem ser chamadas “ciências conforme a nossa vontade”. Pois um homem acredita mais facilmente no que gostaria que fosse verdade. Assim, ele rejeita coisas difíceis pela impaciência de pesquisar; coisas sensatas, porque diminuem a esperança; as coisas mais profundas da natureza, por superstição; a luz da experiência, por arrogância e orgulho; coisas que não são comumente aceitas, por deferência à opinião do vulgo. Em suma, inúmeras são as maneiras, e às vezes imperceptíveis, pelas quais os afetos colorem e contaminam o entendimento.”

(Francis Bacon, in Novun Organon, 1620).


“Fake News” – expressão herdada do idioma inglês – consiste no conjunto de notícias falsas, inverídicas e levianas divulgadas maciçamente por meio de veículos de comunicação, como se fossem notícias idôneas e fidedignas.


As fake news possuem como principais objetivos a legitimação de pontos de vista políticos, ideológicos, filosóficos, acadêmicos ou religiosos, e detém altíssimo poder de “viralização”, espalhando-se com velocidade absurda. Destroem reputações, inflamam grupos sociais, promovem desordem, insegurança, instabilidade, escândalos políticos e até familiares.


E do que as fake news, esse monstrengo abominável, efetivamente alimenta-se? As Fake news se alimentam da ignorância pura e simples; de uma paixão incontrolável pela mais rasteira das futricas; de um ânimo beligerante gratuito, cujas raizes não serão agora abordadas; do amor à bizarrice e ao escatológico, coisa que nós, brasileiros, cultivamos em excesso; da necessidade constante de que a “pseudo-ciência” apodere-se dos corpos e das almas inocentes – que, é bem verdade, não são lá assim tão inocentes, uma vez nos intoxicamos reciprocamente com isso.


A história das fake news, acreditem, é muito mais antiga do que parece.


A nossa incomparável linguagem, ao que tudo indica, perseverou e corroborou na evolução humana como uma maneira explícita de partilhar – e até mesmo de patrulhar, já que abordava comportamentos normalmente tidos como reprováveis – as peculiaridades e notícias sobre o mundo. Todavia, “as peculiaridades e notícias sobre o mundo” que, de fato, eram realmente imprescindíveis referiam-se aos próprios seres humanos enquanto pertencentes a um aglomerado qualquer e não necessariamente ao mundo, muito mais, aliás, do que as condições do tempo, ou as armadilhas naturais do ambiente ou ainda a localização de animais que lhes ofereciam riscos, numa cooperação social imprescindível à sobrevivência ao meio – e à supremacia máxima no planeta.


Era mais interessante então conhecer e debater uns sobre os outros, apurar quem eram as fêmeas melhores parideiras, os machos mais viris (e os menos, como ainda hoje acontece), os acampamentos mais bem estruturados, as invejas, as soberbas, as ganâncias, as vaidades, as gulas, as luxúrias as as preguiças (vixe, elenquei os sete pecados capitais completos!!!), os indivíduos engraçados e os mau-humorados, os idôneos e aqueles que eram apenas velhacos.


Ou seja: a enorme expertise em se comunicar que o homem conquistou – com sacrifícios darwinianos – há cerca de 70.000 longevos (ou nem tanto) anos gregorianos oportunizou a formação de subgrupos, a conquista de novos horizontes, a destreza no convívio entre as tribos, a usurpação, a superioridade e a alternância de poder sobre os que eram de uma “turma” sobre uma outra turma e, por consequência óbvia, a divulgação de corriqueiras e insidiosas mentiras (fake news), ela própria, a persuasão cínica, a manipulação em grande escala de pessoas e o – difícil, porém possível desde sempre – manuseio do inconsciente coletivo.


Mas também havia desde aquele período algo ainda mais fascinante: aprendemos também a inventar, a transmitir e a ecoar notícias e situações acerca de temas que jamais enxergamos, apalpamos, escutamos ou cheiramos; temas mitológicos e ficcionais que, aos olhos da mais lídima ciência – com seus protocolos e metodologias – simplesmente não existem!


E a lenda (o que não existe) pode ser bastante traiçoeira, se apresentando em forma de enorme risco, ameaça ou desordem. Afinal de contas, alguém que procura alienígenas ou gnomos em um vale deserto e inóspito provavelmente terá menos possibilidade de sobrevivência do que o seu companheiro que persegue água e alimento…


Lembro-me, por oportuno, de registrar a incrível história dos íncubus e súcubos, cuja primeira menção documentada remonta ao século III a.C. e se estende ao longo de inúmeras culturas ao redor do mundo. Íncubus (do latim “incubare”) eram demônios que assumiam formas masculinas a fim de seduzirem mulheres. Súcubus (do latim “succumbere”, ficar por baixo) assumiam formas femininas a fim de seduzirem homens. Tudo isso acontecendo durante os sonhos, sugando as energias vitais das vítimas então possuídas.


Eram tão ardilosos esses capetas que registros históricos de dezenas de depoimentos colhidos – especialmente no medievalismo – descrevem a “enorme” semelhança dos disfarces cuidadosamente escolhidos por esses danados com as feições físicas dos abades, freiras, senhores, professores, familiares e vizinhos das pobres vítimas (!), tudo muito parecido, aliás, com os relatos de pessoas que tiveram os corpos brutalmente abduzidos por extra-terrestres tarados e pervertidos para a prática de experiências sexuais bizarras.


A nossa própria mente, por meio de “esquecimentos seletivos” e preenchimentos de lacunas, cria-nos também notícias falsas.


Voltando agora aos turbulentos dias de hoje: o assunto “fake news” está em voga. Não porque o mundo inteiro se vale das fake news com um despudor vexaminoso no intuito de fazer prevalecer ideias e pensamentos, mas porque o mundo inteiro está mais idiota.


E, corroborando com a nítida e epidêmica idiotice, há os “instrumentos da modernidade”, o universo virtual gratuito e a todos democratizado, a velocidade e a voracidade da informação, as notórias redes sociais, a comunicação, a transmissão, o tratamento e o armazenamento de dados que interligam as pessoas em milésimos de segundos, muito embora por elos de correntes fracos e quebráveis.


Toda a tecnologia que envolve a humanidade não é causa de mentiras que se consolidam em notícias falsas; em verdade, a mastodôntica congregação virtual de indivíduos é apenas a singela ferramenta de que hoje nós dispomos. Ferramenta poderosa, porém arriscada e imprevisível quando ao alcance e sob o controle dos que são burrinhos; um AK-47 carregado e destravado, amparado por um desastrado orangotango.


Não vai longe o tempo em que falsos pesquisadores disseminavam boatos de porta em porta durante o período eleitoral, levantando dúvidas sobre candidatos adversários. Também ainda nos chegam notícias de crianças falecidas ante a recusa peremptória dos pais em lhes administrar vacinas porque leram em algum lugar que “vacinas fazem parte de um complô mundial para adoecer os jovens”.


Não nos olvidemos de que “o forno de microondas causa câncer”, que “os espíritos dos mortos agem em sincronia a fim de sabotarem projetos e empreendimentos financeiros dos viventes”, que “as cartas e os astros definirão o seu futuro”, que “as pirâmides do Egito foram construídas por alienígenas”, que “o vinagre engana o bafômetro”, que “a Amazônia é internacionalizada”, que “o bacalhau é um peixe”, que “o Led Zeppelin tocado de trás para a frente invoca o demônio”, que “o dízimo entregue ao pastor levará você a Deus”, que “o Lennon era um pacifista”, que “existe agulha com o vírus HIV na poltrona do cinema”, que “você acordará da balada numa banheira de gelo sem os seus rins”…


E, enquanto discutíamos bobagens ininteligíveis ao longo de tantos anos, um carinha chamado Mendel descobria a essência da ciência genética pesquisando ervilhas numa horta plantada no mosteiro no qual residia, ainda no século XIX.


E, por isso mesmo, qualquer normatização ou diploma jurídico que tente coibir, inibir, aplacar, minimizar, extirpar, erradicar ou criminalizar as fake news estará invariavelmente fadado ao maior e mais retumbante fracasso, por duas razões bem simples, e aqui já ditas:


a) existe ignorância e leniência das pessoas no momento de se verificar a fonte de alguma notícia recebida; e


b) as pessoas – com destaque especial ao nosso glorioso povo brasileiro – gostam, aliás adoram, ou melhor, idolatram um “barraco” e uma boa fofoca, fazendo justiça à herança portuguesa, à escravidão, à Igreja Católica Apostólica Romana e respectivas ordenações canônicas, com as suas clausuras, seus segredos de confessionário e olhares de maledicência.


Lamentável é que ainda percamos o nosso tempo, dinheiro, saúde e lazer ao criar, divulgar e desmentir notícias falsas que o mínimo exercício de bom-senso já detonaria por completo.


Ou melhor dizendo: lamentável é que ainda sejamos tão ignorantes.


Conheça o nosso colunista Andre R. Costa Oliveira e leia outros artigos de sua autoria:

https://www.cartapolis.com/sapere-aude

105 visualizações