NÓS, OS “FEIOS”

Por ANDRE R. COSTA OLIVEIRA


Oscar Wilde certa vez escreveu que “a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”. Vamos falar agora de alguns personagens emblemáticos.

“O Homem que Ri” foi publicado originalmente em 1869, sendo o penúltimo trabalho do genial Victor Hugo. A trama se passa na Inglaterra do século XVIII, e a história gira em torno de Gwynplaine, um jovem que em sua infância foi sequestrado por um grupo de criminosos, vendido a uma trupe e submetido a uma terrível mutilação no rosto, dando a impressão de que estaria sempre sorrindo.

“O Fantasma da Ópera” é um romance frances de ficcao gótica de autoria de Gaston Leroux, de 1909, no qual o personagem principal de nome Erik, vivendo escondido nos subterrâneos da Ópera de Paris, além de extremamente culto possui uma voz maravilhosa, porém se esconde do mundo devido a uma grave deformidade na face, que o obriga a utilizar permanentemente uma máscara.

“Joker” (Coringa) é um personagem criado nos anos 40 do século passado pela editora DC Comics. Foi recentemente imortalizado por Joaquim Phoenix no cinema, em uma interpretação magistral. Trata-se de um homem pobre, com sérios problemas psiquiátricos, e que, após uma enorme sucessão de agressões, tragédias pessoais e humilhações sofridas se transforma em um super-vilâo do crime, e célebre arqui-inimigo do Batman, como todo mundo sabe.

Severino de Aracaju é uma criação de Ariano Suassuna em “O Auto da Compadecida”, que é uma peça de teatro em três atos, escrita em 1955; trata-se uma criança sertaneja que, ainda muito nova, vê os pais sendo assassinados por soldados e, crescendo, torna-se um cangaceiro sanguinário.

“Eleanor Rigby” dá nome a uma música tristíssima dos Beatles gravada em 1966. Fala sobre uma mulher profundamente solitária, e que “recolhe o arroz de uma igreja onde houve um casamento, vive em um sonho, espera na janela usando uma máscara que guarda em um jarro ao lado da porta”.

E o que todos esses personagens tem em comum? Todos são discriminados, marginalizados, não-enquadrados ante o fato de carregarem consigo defeitos físicos severos e problemas mentais complexos.

A sociedade não os aceita, não os tolera, não os suporta sob nenhuma hipótese, porque na visão das pessoas são seres indesejáveis, asquerosos, “diferentes”. Porque de uma maneira ou de outra são feios.

E o que são os feios, afinal de contas? Feio é aquilo que não é belo, e o que não é belo se transforma em intolerável. Eu poderia discorrer por horas inteiras sobre o conceito de estética, passando por Platão, Aristóteles, Rosenkranz, Umberto Eco, Dostoievski, Edgar Allan Poe, Baudelaire, Salvador Dali dentre vários outros filósofos, escritores, ensaístas, cientistas, músicos, artistas plásticos etc.

Só que a questão que se coloca agora é outra: vocês já repararam que atualmente, em pleno isolamento social decorrente da pandemia do COVID-19, nós é que usamos máscaras e estamos vivendo escondidos, acuados e com medo? Nós estamos física e metaforicamente feios; estamos com os cabelos descuidados, com as unhas mal feitas, com pouco dinheiro, com as nossas casas desarrumadas, com os nossos medos e melancolias aflorando como cogumelos – nós estamos com a peste, com a moléstia. Somos os leprosos, os lazarentos, os errantes, os deformados que nos entreolhamos assustados no mercado, na farmácia, nas varandas, sempre imaginando quem será o malfeitor que nos contaminará com o coronavírus.

A maioria de nós hoje experimenta a exclusão, a rejeição, e não adianta a gente assistir a essas múltiplas propagandas de TV com mensagens otimistas, de um sol que nascerá brilhando para todos, porque isso não é verdade. Somos e estamos em meio ao bizarro.

E é por essas e outras constatações que talvez a sociedade não saia melhor ou mais evoluída filosoficamente ou espiritualmente depois disso tudo.

Eu reconheço, é verdade, que a pandemia já está desnudando os fanfarrões, os casamentos de fachada, as enormes diferenças familiares que durante anos foram empurradas para debaixo dos tapetes, mas por outro lado vem revelando o lado bom e solidário de muita gente, além de um processo importante de autoconhecimento.

Só que daí a acreditar que quando tudo isso acabar as pessoas estarão mais complacentes, mais compreensivas, mais benevolentes é uma possibilidade arriscada; quem sabe até uma enorme utopia.

Temos que nos preparar para a intensificação dos muitos preconceitos existentes entre os diferentes grupos sociais, para a continuidade do processo de marginalização daqueles que normalmente já são excluídos, para diversos setores de uma economia que precisarão novamente avançar e que talvez não remem na mesma direção e, sobretudo, para relações geopolíticas tanto em âmbito internacional quanto interno, ainda mais frívolas, eu diria até mesmo tensas.

Excetuando-se a tecnologia, a pesquisa e o desenvolvimento, a História já nos ensinou que o mundo não ficou mais legalzinho, mais bonzinho, nem mesmo após revoluções sangrentas e genocidas, guerras mundiais, crises econômicas ou pandemias.

Voltaremos todos nós esperançosos, porém ressabiados, inseguros, e teremos que nos reinventar em múltiplos aspectos.

Gwynplaine continuará com o seu sorriso falsamente forjado enquanto carrega um profundo sofrimento na alma; Erik permanecerá vagando pelos corredores gélidos dos calabouços da ópera; o Coringa, cada vez mais louco, enfrentará diariamente o homem-morcego pelas ruas de Gotham City; Severino de Aracaju vai aterrorizar por muitos anos os piores pesadelos dos sertanejos no nordeste brasileiro; e a Eleanor Rigby, sempre solitária e invisível, recolherá ainda muitos grãos de arroz na escadaria da igreja.