NA QUARENTENA COM ANNE FRANK

Por LEO LADEIRA

O que podemos aprender sobre confinamento com a mais famosa vítima do Holocausto

"A parte mais legal é poder escrever todos os meus pensamentos e sentimentos; caso contrário, eu absolutamente sufocaria".


Em tempos de quarentena obrigatória por conta da pandemia do novo coronavírus, muitas pessoas têm se lembrado de 'O Diário de Anne Frank', um dos livros mais vendidos de todos os tempos e escrito pela adolescente judia que se tornou símbolo do Holocausto na Segunda Guerra Mundial. Na manhã do dia 6 de julho de 1942, Anne, com 13 anos recém-completados, deixou seu confortável apartamento em Amsterdam, Holanda, para se esconder, ao lado dos pais e da irmã mais velha, nos fundos do escritório do pai, no centro da cidade. Ao cruzar a porta que depois seria escondida por uma estante falsa, a família Frank entraria em um confinamento que teria duração de mais de dois anos. A eles se juntaram a família Van Pels e, mais tarde, um dentista de nome Fritz Pfeffer, totalizando oito pessoas escondidas no Anexo Secreto, como Anne chamava o refúgio.

Estudos, Leitura e Rádio


A rotina no esconderijo era marcada por regras severas. Como o escritório - uma empresa de temperos e especiarias - estava em pleno funcionamento mesmo durante a guerra, os moradores do anexo precisavam fazer silêncio absoluto durante o dia, evitando andar calçados e usar as descargas do banheiro. As conversas precisavam ser feitas através de sussurros. As janelas permaneciam fechadas e tapadas por cortinas. Só no fim da tarde, quando terminava o expediente e os funcionários do armazém iam embora é que eles podiam se movimentar com menos cautela. Ainda assim não podiam emitir sons altos, pois havia moradores na vizinhança. Serem descobertos significava ir para a prisão e, posteriormente, para os temíveis campos de concentração.      


O que fazer durante os longos e intermináveis dias nestas condições? Nem precisamos lembrar que estamos falando de uma época sem Netflix, sem lives no Instagram, sem Internet, sem WhatsApp, sem TV, sem Spotify, I-Food e outras facilidades do presente. Ninguém podia também dar um pulo rápido no mercado ou na farmácia - a "quarentena" era absoluta!        


O pai de Anne, Otto Frank, logo tratou de incluir uma rotina de estudos e leitura no dia a dia do anexo. Na impossibilidade de ir à escola, tanto a adolescente, como sua irmã Margot e Peter, filho dos Van Pels, tinham aulas diárias - a maioria supervisionada pelo próprio Otto. Eles estudavam Inglês, Francês, Trigonometria, Física, Química, Álgebra, Geometria, Literatura, Geografia, História, Biologia e outras disciplinas.


A leitura também era um hábito constante dos moradores, tanto dos jovens como dos adultos. Os livros eram trazidos pelos colaboradores não judeus (os 'helpers', como Anne os chamava), responsáveis por prover o esconderijo de comida e itens básicos de sobrevivência.


Ouvir o rádio também fazia parte da rotina diária do grupo. Eles escutavam tanto notícias da guerra, especialmente da BBC londrina, como programas musicais.


Alguns dos residentes também faziam exercícios físicos, como o Dr. Pfeffer, mas só de manhã bem cedo ou depois das 18h.  

Escrever para não sufocar Durante os 761 dias em que permaneceu confinada, Anne escreveu compulsivamente. Não só seu famoso Diário, mas também contos. A jovem planejava publicar um livro sobre seu tempo no Anexo Secreto. Escrever para ela significava uma maneira de sobreviver à condição de enclausuramento. Ao registrar sua rotina, ela trabalhava seus sentimentos, esperanças, medos e sonhos. Com o passar do tempo, Anne adquiriu uma forte habilidade de observação e auto-reflexão. Relatava as tensões diárias e o terror de ser encontrada. Em 4 de agosto de 1944, os moradores do anexo foram traídos e levados pela Gestapo. Permaneceram juntos nos primeiros meses, mas, depois, foram separados em campos de concentração diferentes. Do grupo, apenas Otto sobreviveu. Anne e sua irmã Margot ficaram juntas até o fim, morrendo em fins de fevereiro ou início de março de 1945 (não há a data certa da morte das meninas), em Bergen Belsen, na Alemanha. Anne tinha apenas 15 anos. Os cadernos e folhas usados por Anne para escrever seu Diário e os contos foram encontrados por uma das colaboradoras do grupo, Miep Gies, no chão do Anexo Secreto, após a prisão dos moradores. Ela guardou o material na esperança de devolvê-lo à jovem quando ela retornasse do campo de concentração. Como Anne jamais voltou, o mesmo foi entregue a Otto, que publicou os escritos da filha em 1947, alcançando grande sucesso. Desde então, o Diário de Anne Frank foi traduzido para mais de 70 idiomas, virou filme, peça de teatro, série e até musical. E Anne tornou-se um símbolo do Holocausto, representando os milhares de judeus mortos na Segunda Guerra. A jovem deixou um legado à humanidade de valores de paz, tolerância, diversidade, união, coragem, fé e esperança. 75 anos depois da morte de Anne e em tempos de pandemia do coronavírus, seu diário certamente ainda tem muito a nos ensinar!


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