NINGUÉM IRÁ CHORAR PELA ARGENTINA

Por ALFREDO BESSOW


Costumo dizer que gosto mais da Buenos Aires mítica que emerge dos tangos e da literatura do que da cidade real, que é feia, velha, lúgubre e decadente. A cidade parece aquelas tias velhas que se agarra na antiga beleza de tempos que não existem mais para confrontar as agruras de um presente sem brilho, sem carisma e sem mais nada a seduzir a não ser buscar incautos para as armadilhas de um turismo feito de achaques e de artificialidades. Das cidades que amei, Buenos Aires é aquela que hoje me soa mais indiferente, aquela sensação de quem amou uma mulher e tem um sentimento entre a vergonha e piedade ao encontrá-la na sarjeta.


As notícias que chegam de _los hermanos_ são as piores possíveis e hoje pode-se dizer sem medo de errar que falta pouco, muito pouco para que se concretize o pior dos vaticínios: a cidade e o país que sempre carregaram a empáfia de se sentirem e viverem coo se fossem do 1º mundo, viraram uma pocilga do padrão da Venezuela, de Cuba, da Coreia e de outros paraísos imaginários.


Se para um cubano é sonho de consumo poder fumar um bom _habano_ ou sorver um rum de excelência, contentando-se em fazer fumaça com charutos roubados de fábricas ou feitos nas fabriquetas de fundo de quintal e que se abastecem do mercado paralelo dos restos de tabaco – vendidos nos becos de Habana sem rótulo, o mesmo acontece com os argentinos que precisam se contentar em comer os restos de carnes, os cortes menos nobres, as pelancas que os mercados não aceitam. As muxibas e os restos de carne que sobrevivem nos ossos é que estão nas mesas de pessoas que agora precisam começar a engolir o orgulhoso e a empáfia.


Tenho conversado com pessoas que estão ou estiveram por _alla_ nos últimos dias e os relatos sombrios mostram que a opção tresloucada pelo retorno do peronismo para a Argentina foi “uma mala suerte”, ou como alguém me disse em tom melancólico como se fossem versos de um tango: _“estábamos en la mierda y nadie podria pensar que habría varios pasos hacia abajo en la degradación de nuestra alma ... y fue a este inframundo que el gobierno actual nos llevó”_ (nós estávamos na merda e ninguém poderia pensar que haveria vários degraus abaixo na degradação de nossa alma...e foi para este submundo que o atual governo nos levou). Um tema assim nas mãos de Alfredo Le Pera, o brasileiro que é o maior compositor de tangos, estaria imortalizado.


Mas não vemos apenas isso acontecer com a carne, mas também com aqueda na qualidade do vinho e o Malbec antes quase que uma exclusividade das regiões de Mendoza e de Córdoba, hoje já tem concorrência de bons rótulos do Uruguai.


Para mim, particularmente, é um quadro triste. Se antes era um risco valer-se dos serviços de um taxi em Buenos Aires, nos dias de hoje andar pelas ruas abandonadas, ocupadas por resilientes e velhas prostitutas, por mendigos e drogaditos de múltiplas idades, é expor-se ao assalto, ao achaque e às ameaças.


Por isso, ao menos enquanto os peronistas estiverem destruindo o país, vou continuar resgatando a Buenos Aires que aprendi a amar muito antes de conhecer e da qual guardo os versos em tangos de tantos poetas, a escrita de Borges, Giraldes, Reverte.


Em uma de minhas viagens, rabisquei estes versos que o Beto Gonzales trabalha em uma linha melódica.


Buenos Aires, yo volvere


Ahora que mi cuerpo se vá

dias y noches me esperan

por tierras estrañas nel trabajo

de labores sin color, ni canción

donde nadie mas soy que esclavo

y desherdado rehén de la obligación.


Pero de ti, Bueno Aires, nunca olvidare


Isto puesto, tenga certeza

que dejare por tus calles

a contemplar tu cielo mi alma

que solo tiene vida por tu sedución


Y cuándo a ti volver otra vez

cuerpo y alma se estrecharon

para seren por la vida entera

uno solo ser, una sola razón

Por las esquinas entonces

Se escuchara la voz del corazón

Sin desdicha ni outra separación

Porque de ti, Bueno Aires, nunca olvidare

(Alfredo Bessow e Beto Gonzáles)


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