No dia dos pobres, mais alimentos, menos bombas

Atualizado: Fev 17

Por CÉLIA LADEIRA MOTA

Domingo, 17 de novembro, dia mundial dedicado aos pobres. Em mensagem aos cristãos, o Papa Francisco lembrou que a fome é a principal consequência da pobreza, o resultado de políticas que pioram a vida de milhões de pessoas. “Todos os dias encontramos famílias obrigadas a deixar a sua terra à procura de formas de subsistência noutro lugar; órfãos que perderam os pais ou foram violentamente separados deles para uma exploração brutal”, afirma o papa. Além disso, Francisco pergunta: “como esquecer os milhões de migrantes vítimas de tantos interesses ocultos, muitas vezes instrumentalizados para uso político, a quem se nega a solidariedade e a igualdade? E tantas pessoas sem abrigo e marginalizadas que vagueiam pelas estradas das nossas cidades?”


O Papa, que jantou com moradores de rua em Roma, se referiu também aos pobres nas lixeiras a catar o descarte e o supérfluo, a fim de encontrar algo para se alimentar ou vestir. “Tendo-se tornado, eles próprios, parte duma lixeira humana, são tratados como lixo, sem que isto provoque qualquer sentido de culpa em quantos são cúmplices deste escândalo. Aos pobres, frequentemente considerados parasitas da sociedade, não se lhes perdoa sequer a sua pobreza. A condenação está sempre pronta”.


Coincidentemente, assisti a um programa na TV da série Pedro pelo Mundo, em que o jornalista Pedro Andrade nos apresenta países e lugares muitas vezes esquecidos pelos ricos. Exibido no canal GNT, o programa visita o Camboja, um país que pode ser considerado muito pobre de acordo com os parâmetros da ONU.


No Camboja, não existe dia dos pobres, mas o dia da memória, que ocorre em 20 de maio. Todos os anos, milhares de cambojanos visitam o monumento funerário de Cheung Ek, cuja construção foi composta de milhares de ossos e crânios. Nada sutil.


A população, que segue o budismo em 90 por cento, faz oferendas, acende incensos e reza pelas almas de mais de 1,7 milhão de pessoas, ao mesmo tempo em que tenta superar e esquecer o capítulo mais tenebroso da história do Camboja. É um dia destinado a lembrar as matanças orquestradas pelo Kmer Vermelho, uma organização política que adotou o comunismo em decorrência da Guerra do Vietnã. Matanças que também foram causadas pelos bombardeios norte-americanos.


Sua fronteira com o Vietnã fez com que o Camboja sofresse com os bombardeios norte-americanos destinados aos vizinhos. De acordo com os dados oficiais que começam a serem revelados, de outubro de 1965 a 15 de agosto de 1973, os Estados Unidos lançaram sobre o Camboja uma quantidade de bombas muito maior do que se estimava até agora: 2.756.941 toneladas. O banco de dados revela, também, que o bombardeio começou durante a presidência de Lyndon Johnson e seguiu no governo de Richard Nixon.


A matança de civis no Camboja jogou um povo exasperado e faminto nos braços de um movimento guerrilheiro que até então recebera um apoio relativamente limitado da população, provocando a expansão da guerra do Vietnã no interior do Camboja e a rápida ascensão do Khmer Vermelho, um grupo sanguinário que se manteve no poder graças a uma matança generalizada da população.


Os que não foram mortos pelas bombas americanas ficaram aleijados. E quase dois milhões morreram nas prisões do Kmer Vermelho.


Livres do regime autoritário, os cambojanos hoje procuram recuperar o tempo perdido. É um país pobre como tantos outros especialmente na África, na Ásia e na América Latina. A eles se juntam países como a Síria, o Iraque e o Afganistão, que vivem uma guerra sem fim. Seus habitantes vagam pelo mundo em busca de uma pátria perdida. E engrossam as estatísticas da ONU sobre a fome no mundo. São, segundo a ONU, quase um bilhão de pessoas com fome, vivendo na pobreza sem horizontes. A espera de políticas que mudem o seu destino, que substituam as bombas por alimentos.


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