NO TEMPO EM QUE OS BARES ERAM BARES...

Por ALFREDO BESSOW



Sempre gostei dos bares e das figuras que os tornam únicos. Há em minha memória peregrina a lembrança de muitos bares – cada qual por seus motivos continuam vivos em mim. Alguns mais, outros irrelevantes. Poderia traçar minha história pela memória destes lugares em mim, mais por conta do imaginário que a lembrança reinventa e dos dissabores que o tempo apaga.

Foi assim...

Conheci o Aspone em um fim de noite, naquela jornada sem destino de quem sai em busca de um lugar para o último gole e quem sabe uma nova paixão. Era bar que funcionava nas proximidades do Ceub sempre com cerveja quente, petiscos gordurosos, banheiros fétidos, garçons mal humorados mas era o lugar onde se reunia uma fauna urbana de muitos sotaques e hábitos, numa tolerância sadia em um tempo no qual o politicamente correto ainda não tinha reduzido a vida a um conjunto enfadonho de regras e pessoas com mais melindres do que sonhos.

O Aspone tinha um pequeno detalhe: só valia a pena frequentá-lo depois da meia noite, quando os chatos costumeiramente já tinham ido dormir, os candidatos a celebridades já tinham se bandeado com seus egos e restavam apenas aqueles que se toleram, porque aprenderam que a tolerância é mais do que humana, uma manifestação divina.

Eu tinha um poncho de lã, feito por minha mãe que me aquentou e emparceirou a vida inteira até encontrar as mãos avidas de uma diarista que, depois de conquistada nossa confiança, levou o que pode do nosso apartamento – toda sorte de inutilidades, como um ladrão que podendo roubar quadros valiosos de um museu, por falta de conhecer arte, rouba o livro de visitantes.

Era começo de madrugada, estranhamente fria para os padrões de Brasília e fui caminhando em um tempo no qual andar a pé era um direito nosso, não uma forma de ousadia e de roleta russa moderna. Orgulhoso com meu poncho, surrado pelos anos e com tantas lembranças que hoje sei, aquela noite também a nossa despedida.

Havia mesas de onde saiam alaridos intensos como a denotar alguma comemoração por algo não lícito, até por estarem ali figuras que não se encaixavam no phisique du role cotidiano da casa e mulheres vestidas com um glamour que destoava de mesas rústicas, cadeiras sem conforto e garçons com o hábito de atender de qualquer jeito e sem qualquer cerimônia.

Me revejo em um espelho na passagem para o banheiro para quem quisesse se confirmar em seu estado de sobriedade, algumas cópias vagabundas de quadros nas paredes, posters anunciando bebidas, um ventilador de teto que nunca vi funcionando e aquele cheiro que em um primeiro momento causa repulsa e que depois acaba se naturalizando e virando característica que se enraíza na memória.

Busquei com os olhos alguma alma e fui para a mesma mesa de bancos contíguos, lembrando carteira escolar dos anos 60 e 70. Pedi o de sempre – cerveja, cachaça ordinária e uma tábua de carne de sol, com queijo, cebola e mandioca cozida.


Não havia celular e fiquei bebendo solito, sentindo a vida ir refluindo e se reinventando dentro de mim. Absorto, de quando em vez algum aroma distinto atraia a atenção e o máximo que meus olhos viam eram corpos sumindo em passos comandados por mãos ávidas apalpando nádegas de mulheres bem vestidas.

O barulho foi cessando... Já de novo eram perceptíveis os gritos e as imprecações dos garçons e o pessoal da retaguarda.

Aos poucos os aromas finos foram substituídos pelo cheiro característico de frituras. O barulho de mesas sendo recolhidas, de pratos e copos sendo jogados sobre o balcão. Num canto, um violão dedilhava Fio de cabelo, enquanto a voz tentava achar a melodia e os acordes, como se fosse a peleia de dois cegos se tateando com facas buscando corpos.

Pedi a conta, derramei o resto de cachaça no chão em reminiscências a um velho hábito campeiro de quem nunca gosta de beber sozinho – como agora, quando escuto notícias e a chuva insiste a chamar minha alma para o aconchego de algum canto da memória, um lugar onde possa bebericar com as lembranças de algum amor eterno que tenha morrido no tempo, sem ser capaz de deixar nem ao menos o vestígio de saudade ou o gosto amargo de alguma promessa fugidia de eternidade.


No tempo que bares eram bares...


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