NUMA TRANSIÇÃO, COM A DOR NÃO SE BRINCA, APRENDEU HERÁCLITO

Durante o período da transição para a posse que não houve, o presidente eleito Tancredo Neves recebia futuros ministros e políticos na Granja do Ypê, que era a de sua preferência desde os tempos de primeiro-ministro do regime parlamentarista em que lá fizera o seu “bunker”.

No Ypê – uma bela chácara da Presidência, logo após desativada e doada a instituição filantrópica – ele sobretudo escapava das aparições públicas por causa dos incômodos causados pelas dores no estômago.

Uma das raras visitas aceitas foi do deputado piauiense Heráclito Fortes,do então PFL, que desfrutava de trânsito e intimidade com ele e que havia funcionado como pombo-correio durante viagem que Tancredo fizera a 7 países, para a montagem do ministério.

Heráclito, porém, não tinha noção – como de resto ninguém mais – da extensão e da gravidade da doença do presidente mineiro.

A chegar ao Piantella. após a visita, de frequentadores de sua roda no restaurante – o Clube do Poire – logo ouviu a fatal pergunta:

– E com o presidente, como foi a conversa?

– Olha, acho que mandar nesse governo! Não é que o Dr. Tancredo me deu toda a intimidade? Me recebeu de pijama, com a perna em cima de mesa e o tempo topo coçando a barriga…

Não era intimidade – logo descobriu Heráclito. Era dor mesmo, que o velho sofria sem dizer a ninguém, como o bom mineiro sabe fazer.

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