O CASAMENTO PERFEITO QUE NÃO É TÃO PERFEITO ASSIM ... PARTE 2

Por RENATA MALTA VILAS-BÔAS

Coluna Vida em Família: Questão de Direito


Maria Clara começou a ficar atenta a todos os mínimos detalhes da vida de Rafael. Afinal se tinha algo de errado ela iria descobrir.


Com a reserva feita para o final de semana no SPA, Rafael caprichou, além do SPA ser maravilhoso, ele montou uma lista de atividades de relaxamento, massagens, e diversas atividades. Cada uma mais maravilhosa do que a outra, isso Maria Clara não podia negar, porém, as atividades não eram em comuns, não eram atividades de casal, apenas poucas atividades, como almoço ou jantar é que eram compartilhadas, as demais eram todas individuais.


E quando estavam no SPA percebeu que existia diversas atividades que eram destinadas para casais, inclusive algumas bem românticas. Fez essa anotação mental, mas não comentou nada.


Na segunda-feira resolveu dar uma olhada no armário de roupas do Rafael. Ela sempre se impressionava com as roupas bem distribuídas, os ternos separados por cores, bem como as camisas sociais. Para trabalhar não tinha uma grande variação de cores. Adotou o padrão tradicional: preto e branco e o máximo que ariscava era uma gravata azul ou vermelha.


Ele fazia questão de deixar na lavanderia e buscar na lavanderia, era um ritual quase que sagrado. Assim, ela quase não abria o seu armário.


Mas, naquela segunda-feira, por desconfiança, ou por impulso, decidiu dar uma olhada. E estava lá as roupas igual como sempre. Todas sem cores. Sem graça. Até as roupas de final de semana, para ir a um churrasco, era aquela mesmice: branco/azul/preto. Sem ariscar em outros tons.


Ela se lembrou de um momento em que quis comprar uma camisa para ele com desenhos aleatórios e que ele ficou extremamente irritado com essa possibilidade. Depois desse dia, só comprou no padrão branco/azul/preto...


Como o lado dele contrastava com o de Maria Clara. Enquanto o de Rafael era todo sério e tradicional, o de Maria Clara era todo colorido. Ali as cores reinavam. E nem parecia que as peças tinham sido compradas pela mesma pessoa. Maria Clara percebeu que nem no lado do Rafael e nem no seu tinha uma única peça que ela tinha comprado, apenas ele é que comprava roupas na casa deles.


Aos poucos tinha se desfeito do seu guarda-roupa antigo e ficou apenas com as roupas que Rafael adquiria para ela. Abriu todas as gavetas e percebeu que isso se repetia: camisetas, shorts e até os sapatos... não existia mais roupas e sapatos de antes do casamento.


Foi correndo olhar os colares e brincos para ver se ali seria diferente. E percebeu que também não...


Com o passar do tempo, aos poucos, e com o seu consentimento, Rafael foi trocando as suas peças pelas que ele adquiria.


Elas eram lindas. Mas, elas não tinham a história de vida da Maria Clara. Não se tratava apenas das roupas, mas do significado delas, das lembranças dos momentos que estavam com elas... Das lembranças das risadas e dos apuros que passou ...


E foi ela que permitiu que isso acontecesse. Diante dessa constatação, Maria Clara foi dormir pensativa. Porque deixou que isso acontecesse ? E porque ele mudou seu guarda roupa todo? Eram duas perguntas que estavam martelando em sua cabeça...


No dia seguinte Maria Clara levantou-se apressada parecia que tinha sonhado com tudo aquilo, mas aí percebeu que não. Na correria do trabalho deixou tudo de lado e só se lembrou disso quando retornou à sua casa no final do dia.


Antes de entrar em casa, parou e refletiu. Dizem que a casa, reflete a personalidade dos seus moradores. O que a nossa casa diz de nós. E começou a analisar a casa, cômodo por cômodo.


A casa deles era linda. Digna de ser fotografada para ser capa de revista. Mas, percebeu que cada detalhe, foi comprado ou sugerido por Rafael. Seja o quadro da sala, a mesinha do corredor. Ele sempre a levava para comprar, isso era verdade. Mas sempre começava assim: “Maria Clara, estava passando na loja X e vi um objeto tal que tenho certeza que vai ficar divino na sala/quarto... Vamos lá ver? Sei que você também vai amar!” E como não concordar? Ele tinha razão.


Maria Clara procurou algum objeto que ela tinha encontrado ou comprado, mas não encontrou. Tudo passou pelo crivo do Rafael, até mesmo as tolhas de mesa e os porta guardanapos. Ela percebeu que aquela casa não era dela, não tinha o jeito dela, o perfil dela.


Ela era como uma sombra naquela casa. Não tinha nada dela ali. Assustada correu para o quarto, mas ali também não era diferente. Nesse momento Rafael chegou em casa e Maria Clara alegando uma enxaqueca foi deitar cedo apagando as luzes do quarto. Rafael ficou até mais tarde no quarto de televisão assistindo os jornais.


Chegou novamente quarta-feira. Maria Clara ficou o dia inteiro nervosa esperando dar o fim do expediente para que pudesse seguir Rafael novamente e ver o que estava acontecendo.


Como ela já sabia o endereço da casa onde Rafael iria assistir o jogo, não esperou que Rafael saísse do trabalho para ir para lá, foi direto. E ficou aguardando na entrada da casa.


Aconteceu da mesma forma, Rafael entrou na casa e pouco depois duas mulheres saem de dentro da casa. Dessa vez, ela resolveu seguir aquele carro.


Ela as seguiu até uma boate no centro da cidade. Ali viu as duas mulheres descerem do carro e uma delas lhe parecia tão familiar, mas ela não sabia o porquê. Provavelmente era esposa de algum colega de trabalho do Rafael que também fazia a tal da noite das meninas no mesmo dia dos rapazes.


Preferiu retornar para a casa e aguardar Rafael sair para perguntar o que estava acontecendo. Não ia aguentar outra semana nesse suspense. E ficou esperando a noite toda. Chegou a cochilar dentro do carro e só acordou com o carro das duas mulheres chegando. Aí teve uma ideia, ia fazer uma surpresa para o Rafael. Afinal, se as outras esposas podiam ir, ela também, podia.


Aproveitou enquanto elas aguardavam que o portão eletrônico estava abrindo e chegou perto do vidro do carro pelo lado do passageiro, e estava perto de falar boa noite e se apresentar, quando reconhece a mulher que está no banco do passageiro !


Não era uma mulher ! Era o Rafael !


Maria Clara ficou paralisada ! Não estava absorvendo aquela informação. Não era carnaval para estar vestido de mulher. Aquilo não era uma caricatura.


Ao contrário, estava muito bem vestida e maquiada. Inclusive, agora que estava reparando bem, era uma roupa igual a uma que Maria Clara tinha. Naquele momento, passou, como um filme, todos os pequenos detalhes, mas que Maria Clara, se recusava a ver.


Maria Clara não tinha condições de dirigir. Ela não tinha condições de entender. Ela se perguntava onde é que ela tinha errado. Ela não tinha sido uma boa esposa ? O que seria dela agora ? O que as pessoas iam falar dela ?


Tomada pela emoção e pelo desespero, Maria Clara apenas chorava. Não entendia porque aquilo tinha acontecido com ela. Percebeu que tinha sido levada para dentro da casa.


Daqui a pouco chegou uma outra pessoa, parecia ser um médico e depois dormiu. Quando acordou, já era dia, pensou que tinha tido um pesadelo, mas quando olhou ao redor, viu que não estava em seu quarto, mas sim, naquela casa desconhecida.


Rafael percebeu que ela acordou e sentou na cama ao lado dela. Confusa, Maria Clara tenta falar algumas palavras. Mas os pensamentos ainda estão embaralhados.


Rafael tenta pegar nas mãos de Maria Clara que as retira rapidamente. Maria Clara começa a balbuciar algumas palavras, mas as palavras ainda não saiam.


Maria Clara não sabia se era dor, se era raiva, se era vergonha o que sentia. Como tinha se deixado enganar por tanto tempo ? Porque não percebeu que Rafael tinha uma vida dupla ?


Ao fundo ouvia Rafael pedindo perdão. Mas, será que existia perdão ? Como perdoar ?


Existia o Rafael de todos os dias que ela amava e existia o Rafael das quartas às noites, será que ela conseguiria viver com essa divisão agora que ela sabia ?


E nesse momento Maria Clara tomou uma decisão, ninguém iria decidir nada por ela, e nem mesmo ela iria decidir nada agora. Ela precisava de espaço, precisava de ar para respirar e entender o que aconteceu.


Levantou-se da cama, vestiu o seu melhor sorriso. E disse, vou fazer uma viagem – viagemterapia – longe de tudo e de todos, ao longo desse processo acabei me perdendo de mim. Quando voltar, decidirei o que fazer da minha vida.


Rafael fez menção de ir com ela, ao que ela respondeu: "daqui 30 dias estarei de volta, e aí conversamos. Antes disso, não iremos tratar de nenhum assunto."


E assim saiu Maria Clara decidida a decidir sobre o seu futuro, pois agora ninguém mais iria decidir por ela. Apesar dela ainda não saber o que ela queria... E nem ao certo quem era ela, pois até isso ela tinha se perdido no meio do caminho ...


Sabia que 30 dias era pouco para se reencontrar, mas era o começo para reconstruir Maria Clara e começar uma nova caminhada, com ou sem Rafael ... A única certeza que tinha é que ninguém mais ia lhe dizer o que fazer, o que vestir ou o que comer...


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