O CONHECIMENTO... QUE CONHECIMENTO? O QUE FICA É O SENTIMENTO!

Por RENATA MALTA VILAS-BÔAS

Coluna Vida em Família: Uma Questão de Direito


Desde pequena Marisol ouvia a frase: “o seu conhecimento ninguém pode tirar de você”. Normalmente isso era para lhe incentivar a estudar, para se formar, “ser alguém” na vida.


E obedecendo à sua mãe, ela tratava de estudar. Estudava o que a professora passava, devorava os livros de literatura da pequena biblioteca da sua escola.


Marisol tinha uma sede de saber ! A tudo ela pergunta porque, como, quando, quanto ... Sempre tinha uma pergunta a fazer. E assim seguia ela devorando os livros, aprendendo nas mais diversas áreas, sobre os diversos assuntos.


Sua mãe e sua avó ficavam super orgulhosas. Afinal, mesmo com toda a dificuldade, Marisol era um raio de luz naquela família. Esperta, decidida, curiosa. Uma alegria para aquela casa tão sofrida.


Ao mesmo tempo que Marisol crescia sobre os cuidados de sua avó e de sua mãe, essas envelheciam. Marisol, percebia que a avó já não escutava como antes, que era uma dificuldade para lembrar de coisas que aconteceram no dia a dia.


A avó de Marisol gostava de contar os casos da época que era mocinha, como conheceu o avô de Marisol e as peripécias que passou para chegar até agora.


A avó não gostava das roupas de Marisol, falando que aquelas roupas não eram de uma mocinha decente. Mas Marisol não se importava com a implicância da avó. Sabia que era “coisa da idade”, e assim, para não brigar com a avó evitava usar short e mini saia dentro de casa.


Um dia Marisol chegou em casa e viu que a avó tinha deixado uma panela no fogão, com água que estava fervendo. Quando Marisol perguntou para que era aquela água, a avó ficou confusa e não soube responder. A Marisol imaginou que deveria ser para chá. Sua avó adorava chá, e para cada chá tinha uma história para contar.


Assim, perguntou se ela queria chá se preparando para fazer e ouvir mais uma de suas maravilhosas histórias.


Só que a avó de Marisol, não queria chá, falou que estava muito quente para beber chá e foi deitar.


Marisol achou aquilo muito esquisito. Sua avó não era de deitar no meio da tarde, estava sempre desperta e alerta. E começou a ficar preocupada.


Quando a sua mãe chegou, foi correndo contar o ocorrido, mas a mãe não se abalou. Disse que devia ser o tempo, que como estava muito quente e seco, deixava as pessoas mais preguiçosas...


Marisol não se conformou com essa resposta, mas não insistiu. Deixou a vozinha dormindo.


No dia seguinte, a avó levantou cedo, trocou de roupa e estava saindo pela porta quando Marisol chegou na sala e perguntou o que ela estava fazendo. A vozinha respondeu que ia até o pasto para ordenhar a Mimosa.


Marisol chegou perto da vozinha e falou que a Mimosa tinha ficado na fazenda e que agora elas estavam na cidade, e que lá não tinha vaca.


E assim, a vozinha voltou para dentro de casa.


E o tempo foi passando...


Na semana seguinte, a vizinha foi visitar a vozinha, e essa chamou ela em um canto da casa e em voz bem baixinho disse que estava passando fome, que ninguém lhe dava comida. E se a vizinha poderia trazer algo para ela comer.


A vizinha ficou muito constrangida, e assim, que deu foi até a casa dela, e trouxe comida para a vozinha.


Quando ela chegou e mostrou para a vozinha, esta começou a gritar que a vizinha queria lhe envenenar. E foi aquele auê na vizinhança.


A mãe da Marisol tentou colocar panos quentes para tentar minimizar o ocorrido, mas a vizinha saiu muito ofendida.


E Marisol, cada vez mais preocupada com a vozinha...


Passando um tempo, Marisol começou a perceber que a vozinha já não lhe chamava mais pelo nome, só usava a expressão “minha filha”. E Marisol percebeu que essa expressão era também usada para a sua mãe, e para qualquer pessoa que chegasse na cada delas.


Marisol, cada vez mais com o coração apertado, percebeu que a vozinha estava esquecendo as coisas. Os óculos foram parar dentro da cristaleira, e a vozinha passou a levar comida para o quarto – era um pedaço de pão ou de bolo enrolado em um guardanapo, que colocava embaixo da cama e só era descoberto quando se fazia faxina na casa. E ela dizia que não era ela...


Marisol e a sua mãe resolveram levar a vozinha ao médico, e saíram de lá com o diagnóstico: Alzheimer.


Sem entender bem, Marisol foi em busca das informações para saber que doença era aquela de nome tão esquisito. E descobriu que é uma doença que faz com que a pessoa esqueça as outras pessoas e tudo o que aprendeu ao longo da vida.


Aí entendeu que aquela frase: “o seu conhecimento ninguém tira”, estava parte certa, ninguém tem como tirar, mas pode acontecer de você não saber mais o que você sabia...


E aos poucos ela percebeu a crueldade que é essa doença, em que as pessoas queridas esquecem dos seus parentes mais queridos, que as lembranças e conhecimentos somem aos poucos, ficando como um caderno em branco. Um grande vazio.


Enquanto que a pessoa não percebe o que acontece com ela, todas as outras pessoas que estão ao seu redor, vão vendo as lembranças sumirem. E os filhos deixam de ser filhos, pois a mãe não mais se lembra deles. E as netas deixam de ser netas, pois a avó não mais se lembra delas.


E assim, Marisol percebeu que até todo o conhecimento pode desaparecer... Mas que o amor que sente pela sua vozinha, mesmo ela não mais sabendo quem é ela, permanece.


E que aquele olhar, antes tão esperto e carinhoso, agora refletia um vazio. Vazio de mundo, vazio de alma. Mas, Marisol tinha amor suficiente para ela e para a vozinha ! Afinal, tinha sido a vozinha que tinha cuidado dela quando ela era pequena, era ela que penteava os seus cabelos para ir para a escola, e dava banho quando ela chegava toda suja de tanto brincar.


Agora era o momento dela fazer as mesmas coisas com a vozinha, cuidar e amar, sem ter nada em troca.


E assim, foi, Marisol estudava e cuidava da vozinha. Não era fácil, às vezes, a vozinha emburrava, não queria tomar banho, ou cismava que não tinha almoçado e queria almoçar de novo. Mas, com amor e carinho Marisol cuidava da vozinha.


Às vezes, Marisol via uma luz por trás daqueles olhos sem brilho, e se animava, mas era apenas um vislumbre. Vozinha continuava esquecida...


O tempo foi passando, e a vozinha foi ficando cada vez mais esquecida, até o dia que esqueceu de respirar...


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