O DESAFIO DA OBSERVAÇÃO EM MEIO À PANDEMIA

Atualizado: 1 de Jun de 2020

Por ALEANDRO L. ROCHA

Qual o significado de parar? É uma proposta de observação da vida ou um desafio doloroso?


As pessoas aprenderam o valor da pausa ou aquietar-se é sinônimo de sofrimento? Por que a pausa, a observação e o próprio silêncio podem ser tão desafiadores para algumas pessoas?


Chego em casa, ligo o rádio e a TV. A wi-fi é automática: respondo mensagens, envio mensagens, atualizo a lista de filmes e séries etc... Os filhos? Quase sempre no quarto, com os seus inúmeros jogos e suas incontáveis horas. Quando muito, o tempo passa entre escutar as demandas, tomar ou não atitudes. No relacionamento, atualizam-se os desconfortos, traçam-se planos e já suspira-se sobre como será amanhã.


Pausa? Só para responder mais uma dúzia de mensagens da última hora e repassar outras tantas. Correndo assim, estamos seguindo com a vida ou empurrando o que se sente, realmente, para um tempo futuro, indeterminado? Não são os conteúdos internos as nossas identificações, mas são as questões externas os grandes espaços que preenchem os dias. Pensando assim, parar é um desafio.


Parar? Só se for em resposta a uma ameaça mundial, que nos obrigue a ficarmos em casa. Mas isso era história de cinema. Afinal, era e é quase irreal pensar que alguma coisa pode exigir que as pessoas fiquem em suas casas. Quantos diziam nunca terem pensado em um cenário assim. Pois bem, era coisa de cinema!


Estamos todos, involuntariamente, dentro de uma história real. A ficção agora é uma realidade dura, triste e incerta, mesmo que passageira. Hoje, estima-se que cerca de 1/3 da população mundial está em casa, aguardando, com temor, os dias que se apresentam e na dúvida do amanhã.


Assim, o ato de parar, desafiador e também cinematográfico, virou realidade; uma imposição da vida e não uma decisão pessoal. Com essa pausa forçada, estamos tendo que lidar com os fantasmas das questões individuais que são empurradas para baixo do eterno tapete, no dia a dia.


E os sintomas? A ansiedade, o pânico, a tristeza e a angústia? Sentimentos que não são completamente estranhos, mas – com o estímulo – ficaram mais evidentes. São velhos conhecidos, abafados com as correrias, com os medicamentos e com as eternas falas do “deixar pra depois”, para o “quando”, para o futuro.


Estamos vivendo um momento histórico que também é um convite à pausa, à reflexão. Temos que lidar com a pandemia (Covid-19), isso é certo. E o que mais poderemos fazer? Será essa a oportunidade de analisarmos o que nos tornamos e aonde chegamos? Estamos dentro de nossas casas, rodeados por pessoas com as quais temos questões não resolvidas: relacionamentos, filhos, trabalho, dinheiro e projetos não realizados.


Quantas emoções sentimos sem nomeá-las? Quantas questões fazem-se presentes e olham para esse recolhimento esperando que, talvez agora, tenhamos o tempo da pausa para entendê-las, portanto, para nos entendermos melhor? O que estamos sendo para nós mesmos e para os outros? Quais cenários estamos criando?


Que cheguem os dias melhores, de superação em todas as nações que hoje sofrem! Sim, esse é um texto de interrogações; questionamentos que aguardam respostas – a sua pausa.


Um desejo para que cada um possa superar suas próprias ameaças internas, enfrentando os sentimentos escondidos e buscando novas formas de existir.


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