O EGOISMO E O INTERESSE COLETIVO

Por HAMILTON GONDIM

Coluna Mundo em Transformação


A busca da racionalidade individualista visando ao bem-estar próprio pode não representar ganho para o bem-estar da coletividade. Dadas as diversas ações dos vários agentes econômicos, consumidores, empresários, e governo, no mundo contemporâneo, repleto de interesses conflitantes, são bem prováveis existirem situações similares às do “dilema do preso político”, criado, em 1950, por Merril Flood e Melvin Dresher e, posteriormente, formalizado em termos matemáticos por A. W. Tucker:


Dois presos, A e B, são suspeitos de uma ação política conjunta considerada ilegal (corrupção, por exemplo). Cada preso é mantido incomunicável e é interrogado, separadamente. A polícia precisa da confissão de pelo menos um deles para poder condená-los (ambos), caso contrário, eles permanecerão presos (em prisão provisória), para interrogatório, por um ano e, depois, por falta de provas, serão liberados. No caso dos dois confessarem, essa cooperação será considerada e ambos terão pena de cinco (5) anos de cadeia. Por outro lado, se apenas um confessar que ambos são culpados (delação premiada), quem confessou ficará livre, enquanto o outro será condenado a oito (8) anos de prisão. Cada prisioneiro, sem saber o que o outro vai fazer, só tem duas escolhas: confessar ou não confessar.


O total de anos de cadeia para o conjunto dos dois suspeitos pode ser de dois (2) anos, se ninguém assumir a culpa (1,1); oito (8), se apenas um fizer a delação premiada (0,8) ou (8,0); e dez (10), se ambos confessarem (5,5). Não sendo possível coordenarem suas histórias, o egoísmo de cada prevalece, e, na esperança de ser solto imediatamente, cada um faz delação premiada, obtendo o pior resultado para o conjunto dos dois. Aí se tem um exemplo de que a busca individual do máximo benefício para si pode ir contra o interesse da sociedade. Mesmo se houvesse um acordo prévio de não confessarem, se não houver um instrumento que os obrigue a cumprir o acordo, o comportamento individualista do benefício privado induzirá a ambos ao descumprimento do acordo prévio. Daí a eficiência da delação premiada, tão comum nos dias de hoje.


Os dados abaixo apresentam um resumo dessas possibilidades por meio de pares ordenados em que o primeiro e o segundo números representam a punição do primeiro (A) e do segundo preso (B), respectivamente:

Dilema do Prisioneiro:


Preso (A)

Confessa - 5,5

Não Confessa - 0,8


Preso (B)

Confessa - 8,0

Não Confessa - 1,1


Obs.: A notação (a, b) significa que os presos (A) e (B) permanecerão “a” e “b” anos na cadeia, respectivamente.


Existem duas formas para que eles ajam de sorte a pegarem apenas dois anos de cadeia. Primeira, se ambos pensassem altruisticamente, não só em sua pena, mas também na do companheiro, isto, isoladamente, cada um concluiria que o pior dos mundos viria com a confissão, induzindo-o a não confessar. Cada um teria que ser forte o suficiente para não cair na tentação de confessar, na suposição de que o outro esteja pensando em não confessar, e ficar livre imediatamente. Segunda, se cada um pensasse ser moral e eticamente errado não considerar a situação do outro ou quebrar um acordo anterior, neste caso, novamente, obteríamos a melhor solução para a sociedade dos dois.


Um comportamento altruístico ou fortemente embasado na moral, no caso do preso político, produz uma situação que é melhor para cada um individualmente e para a sociedade do que a que seria produzida pelo comportamento egoísta. O fracasso de agirem em cooperação visando ao benefício mútuo não representa um sinal de ignorância ou de irracionalidade, pelo contrário, é o resultado natural da tão decantada racionalidade econômica que maximiza os benefícios individuais, sem se importar com as demais pessoas.

Outro exemplo contundente de conflito entre os interesses públicos e privados pode ser apresentado pela conhecida “tragédia dos comuns”. Suponhamos a existência de um campo de pastagem, sem cercas, sendo utilizado comum e livremente por vários rebanhos de diferentes proprietários. Se ninguém pode limitar o pasto dos outros a não ser o seu próprio, por ser de livre acesso, o egoísmo e o individualismo farão com que cada proprietário, no lugar de diminuir, aumente, à saciedade, seu rebanho, para tirar o máximo de proveito individual do bem comum. Dessa forma, será destruído, mais rapidamente, o recurso comum, em que a vida de todos dependia.


Se alguém sozinho resolve, pensando no futuro, limitar o pasto de seu rebanho, enquanto os demais proprietários estariam aumentando, apenas ele sairá perdendo, no curto prazo, mesmo que, no longo prazo, todos percam.


Exemplos análogos podem ser construídos com a pesca, caça, ou coleta de certas espécies, em determinada área de uso comum, em rios, lagos, ou mares, pondo em risco a preservação dessas espécies. O período de defeso (do termo latino defensu) é o período em que essas atividades esportivas e comerciais ficam vetadas ou controladas, tendo em vista que é a época em que os animais se reproduzem na natureza. O próprio planeta Terra seria um exemplo de bem comum, pois todos nós vivemos nessa nave e deveríamos nos preocupar com sua preservação. Para equacionar esses conflitos de interesses públicos e privados, há a necessidade de intervenção do governo, a fim de evitar os efeitos das “tragédias dos comuns”.

(Até os “burros” podem entender que a “cooperação pode beneficiar à sociedade)

Autor desconhecido


De uma forma jocosa, pode-se visualizar o conflito entre os interesses coletivos e individuais por meio de desenhos de dois burros conectados por uma corda e desejando comer dois punhados de capim em locais opostos, conforme mostrado na figura. Cada um, preocupado apenas em comer o que julga ser sua porção, sem dar atenção à situação do outro, tentará, individualmente satisfazer aos seus desejos egoístas. O resultado dessa “luta” do individualismo pode resultar apenas em desgastes para cada um e, naturalmente, para o coletivo, pois ambos ficarão sem comer e em uma situação difícil. Entretanto, se “pensarem” um pouco no interesse coletivo, podem, por meio da colaboração, satisfazer plenamente à sociedade dos dois.


É muito comum existirem situações de falácia de composição: Algo pode ser válido no nível individual ou de pequenos grupos, porém pode se revelar absurdo quando generalizado para o conjunto universal. Isto é o que acontece, por exemplo, em um teatro sem a declividade necessária. Todos sentados, não conseguem ver a cena completamente. De repente, alguém tem a ideia de se inclinar para frente e consegue ver melhor do que todos. O aprendizado e a imitação induzem a todos a tomarem a mesma atitude. Em pouco tempo, todos estarão na ponta da cadeira, de pescoço estirado, vendo tão ruim quanto antes (ou pior, de uma posição mais incômoda!). Aí está um exemplo de conflito entre interesses individuais e o bem-estar da coletividade.


Cada um, seguindo seu interesse individual sem se preocupar com os demais, induz a coletividade a uma situação pior do que a inicial, e menos desejável por todos, inclusive por si próprio. O universo parece sofrer dessa ilusão e teima em não aprender a lição.


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