O Governador do Rio e o Sequestro do Ônibus

Atualizado: 17 de Fev de 2020

Por ANDRE R. COSTA OLIVEIRA


Antes de mais nada, parabéns a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro – PM/RJ pela atuação no desenlace do sequestro ao ônibus na última terça-feira, 20/08, em plena ponte Rio-Niterói, quando um rapaz em surto, portando uma réplica de arma de fogo além de uma faca e alguma quantidade de combustível líquido, ameaçou assassinar os passageiros a bordo – lembrando sempre que um espírito que causa esse tipo de sofrimento obviamente está também em grande sofrimento.


Muito se questiona ainda sobre a cena que se deu logo em seguida: pousa um helicóptero reluzente a alguns metros do veículo, pouco tempo antes dominado pelo recém-fuzilado; desce da aeronave o Governador do Estado em pessoa, senhor Wilson Witzel, comemorando e gesticulando eufórico, coisa que a gente vê na Globo, em gol de placa de final de Copa Guanabara, aos 48 do segundo tempo.


Ao ser criticado pelo que seria uma conduta “desumana”, o Governador, em entrevista coletiva à imprensa, alegou não ter comemorado a morte do sequestrador, mas sim a vida dos que foram salvos pela inegável habilidade do atirador de elite adequadamente posicionado, e que atingiu com precisão cirúrgica os seis projéteis disparados, neutralizando mortalmente o alvo.


Pode ser que tenha sido mesmo a sincera e legítima emoção embevecida de um homem público diante de vidas humanas que naquela hora foram preservadas (lindo isso), mas alguns aspectos merecem destaque, então vejamos:


1) Em primeiríssimo lugar, resta inquestionável que o ilustre Governador do Rio de Janeiro possui ambições políticas gigantescas (aliás, quando estamos na política, até inauguração de banheiro de boteco vira ocasião política de relevância), e o desfecho daquele episódio na ponte Rio-Niterói, sem nenhuma vítima fatal além do próprio agressor, será contabilizado muito em breve, haja vista a majoração e a enorme repercussão que o próprio Governador conferiu à ocorrência, chegando a cometer a gafe de insinuar a participação de facções criminosas no que foi, de fato, um ato isolado, de um cidadão doente, “doidinho”, deprimido gravemente. Não havia Comando Vermelho na história, não havia PCC, não havia as FARC’s, não havia a Al-Quaeda, muito menos a Ku Klux Klan ou a juventude militante alemã do início da década de 30 do século passado. Heil, Witzel.


2) o Governador Wilson Witzel tem plena consciência de que, se estiver nos lugares certos e nas horas certas, criará para si próprio a conveniente e quase mitológica alcunha de “vigilante”, “Dirty Harry”, “John McClane”, “Chapolin Colorado”, tudo isso no escopo de trilhar o exemplo recente do ilustre senhor que atualmente exerce a Presidência da República, o Capitão, o Xerife – fato, inclusive, que até hoje a gente não entende muito bem como aconteceu (arroubos da democracia). Só que a fórmula, com o tempo, ainda que alimentada incessantemente, se tornará obsoleta, e a magia deixará de funcionar como previsto.


3) o Governador indiscutivelmente entende de ciências criminais (o que é bem diferente de entender de violência urbana). É cediço que o seu curriculum – topógrafo, fuzileiro naval, Juiz Federal de Primeira Instância do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, mestre em Direito Processual Civil, professor de Direito Penal Econômico e Doutorando em Ciência Politica – lhe confere formação acadêmica para o exercício de altas responsabilidades, mas não reflete a garantia de eficiência e de resultado. E, por isso mesmo, o seu pragmatismo no que se refere ao combate à criminalidade no Estado que governa deverá ser exercido com cautela e parcimônia – ou seja, com a sutileza e a precisão de um sniper.


4) o Governador Wilson Witzel, no momento em que desceu do helicóptero, naquele raro instante captado pelas lentes da imprensa, se transformou na própria cidade do Rio de Janeiro: engravatado, mas desajeitado; conservador, mas bonachão; inteligente, mas ainda menino; austero, mas eufórico. Uma sensacional caricatura ao melhor estilo “Henfil”, “Laerte”, “Glauco” ou “Ribs”, entre tantos outros. A Baía de Guanabara não é mais a “boca banguela”: é a corridinha do Governador Witzel.


Tomara que não demore a chegar o dia em que o Governador do Estado não precise interromper a sua agenda de trabalho quando for evitado o sequestro a um ônibus, a facada do vagabundo “junkie” na Lagoa Rodrigo de Freitas, a passarela que esmaga vidas, a enchente catastrófica, o arrastão na praia em meio a crianças pequenas, o bueiro que explode na rua, a ciclovia assassina, o assalto ao velhinho que retira a sua aposentadoria na porta do banco, a falsa blitz, os engarrafamentos paquidérmicos, as brigas recorrentes de torcidas e os trens descarrilados.


Tomara também que o cidadão do Rio de Janeiro enfrente a partir de agora o maior de seus dilemas existenciais, até hoje relegado a um canto do armário, provavelmente guardado em uma caixa de barraca de camping desmontada:


Primeira hipótese: A inquestionável banalização da violência percebida no dia-a-dia de um carioca (sim, o Rio de Janeiro não é a cidade mais violenta do Brasil, mas é a única capital que banalizou a violência, e na qual as pessoas não mais se estarrecem com o crime, a vilania, o desrespeito e o aviltamento corriqueiros) seria fruto de eventual processo de alienação política especialmente por parte de sua classe média (em tese, formadora de opinião pública)?


Segunda hipótese: A banalização da violência na “cidade maravilhosa” seria uma mera e perigosa “válvula de escape”, uma forma de levar a vida com alguma alegria mesmo diante da rotina de corrupções e de brutalidades? Tal qual uma “gambiarra” semelhante aos emaranhados de fios e de cabos clandestinos com os quais os moradores das comunidades furtam-se das contas de energia elétrica, de telefone e de TV a cabo, mas que os deixam à mercê de um acidente?


Seja qual for a resposta, uma coisa é certa: não estamos encarando o monstro. Assim como não encaramos até hoje os excluídos, os marginalizados, os desvalidos e os que ficam doentes – e que, quando estão em surto, cometem atos de loucura até mesmo dentro de um ônibus no meio da ponte.



#AndréRodriguesCostaOliveira #RiodeJaneiro #WilsonWitzel

8 visualizações