O GOVERNO E A SOCIEDADE I (DESEJOS E ASPIRAÇÕES DA COLETIVIDADE)

Por HAMILTON GONDIM

Coluna Mundo em Transformação


Ao captar e interpretar os desejos e aspirações da sociedade, os Poderes Executivos, Legislativos e Judiciários, dos três níveis de governos, federal, dos estados e dos municípios (daqui em diante chamados de simplesmente “governo”), recebem influência de forma diferenciada dos vários grupos sociais existentes, cada um com sua forma própria de interpretar a situação socioeconômica vigente e com sua visão dos caminhos que devem ser seguidos. Todos agem de sorte a serem ouvidos e influenciarem as autoridades públicas na definição das políticas públicas que lhes dizem respeito.

Em qualquer sociedade, existem diversos grupos sociais com visões e interesses divergentes, muitas vezes antagônicos, convivendo em variados níveis de desenvolvimento humano. No Brasil, existem: o setor moderno da economia, que utiliza tecnologia de ponta e modo capitalista de organização; o setor governamental, relativamente agigantado (executivo, legislativo e judiciário); o setor urbano marginal, composto de excluídos (esquecidos) da economia capitalista, residentes nas periferias das grandes cidades, geralmente desempregados ou atuantes do setor informal da economia; e as comunidades tradicionais, compostas de inúmeras etnias indígenas, em diferentes estágios de integração com a sociedade envolvente, de pescadores artesanais e de ribeirinhos, vivendo de forma praticamente isolada do restante da sociedade; etc.

Embora não exista uniformidade dentro de cada grupo social, é possível obter-se um mínimo de consenso a ser defendido pelo grupo como um todo. A classe empresarial possui pontos específicos de interesse da classe e age no sentido de influenciar as decisões do “governo”, mesmo sendo uma classe muito heterogênea. Por exemplo, em termos de magnitude do negócio, existem empresários de diferentes escalas: nanos (micro empresas individuais – MEI), micros, pequenos, médios e grandes e megas empreendimentos; em termos de modernidade, existem desde empresas com tecnologia de ponta, até empresas tradicionais, com tecnologia rudimentar e operando na informalidade; em termos de setor econômico, existem empresas de serviços (comerciais, turísticos, ou outros serviços), agrícolas, de agro-negócio, industriais; em termos de destinação do produto, existem aqueles que produzem apenas para o auto-consumo (familiar), até os que produzem para o mercado interno (local, regional, ou nacional) ou externo (internacional); e existem os que exploram as matérias ­primas florestais e minerais, bem como os participantes de projetos de assentamento e colonização, todos com seus próprios interesses.

A Figura a seguir serve para visualizar o conjunto das forças sociais existentes na sociedade em variadas direções e sentidos, representando o conflito de interesses dos variados grupos. O interesse público que influencia a tomada de decisão do governo é a resultante dessas diferentes e inúmeras forças. A visão e julgamento, pelo poder público, da resultante das diferentes reivindicações serão “melhores ou piores”, de acordo com a maior ou menor legitimidade de representação do governo, e quanto mais ou menos uniforme for a distribuição de oportunidades de participação dos variados grupos sociais.



Como o grau de organização dos variados grupos sociais não é uniforme, para que haja maior legitimidade da ação do “governo”, além do fato de representar a vontade popular demonstrada pelo voto expresso em eleição democrática, esse necessita de que a sociedade civil, organizada e não organizada (desorganizada), tenha o mais amplo canal de participação possível, além de respaldar as demandas populares intermediadas pelos parlamentares em todos os níveis, municipal, estadual e federal, que representam o povo, bem como pela imprensa livre, no seu sentido mais amplo.

A eleição dos governantes, em uma democracia representativa, é feita pelos votos de todos: dos excluídos (invisíveis, desempregados e subempregados), dos trabalhadores do setor moderno da economia, dos empresários, dos indígenas, dos garimpeiros, etc.

O simples somatório dessas forças político-sociais conflitantes, muito provavelmente, produzirá um resultado socialmente indesejável, principalmente se houverem grupos dominantes no processo de participação (influenciando e sendo influenciados pela imprensa tradicional). As elites, que inclusive formam o “governo” e ocupam os mais altos postos do setor privado, e os grupos organizados, com financiamento, inclusive externo, e que defendem interesses alheios à nação, por exemplo, são mais facilmente ouvidos pelo governo, pois influenciam os formadores de opinião da sociedade.

Ademais, se cada grupo se mantiver preso a suas convicções, sem dar oportunidade a um amplo debate, com respeito à diversidade de posicionamentos, dificilmente se pode obter algum resultado que represente os reais interesses e aspirações do povo.

Simplesmente somando as partes que cada um imagina conhecer, certamente não se tem a visão completa do futuro pretendido por todos. O futuro do país é mais do que a soma das partes imaginadas pelo “governo”, em todos os seus níveis, por empresários de toda sorte, pelos diversos partidos políticos, por sindicatos, por indígenas, por garimpeiros, por estudantes, por professores, pelas igrejas, pela imprensa, enfim, por cada um dos segmentos organizados ou não da sociedade. Entretanto, é importante que se entenda que, para se conhecer o todo, precisa-se também compreender muito bem as partes e saber como articulá-las em direção a um “objetivo consensuado”, após longo processo de participação de todos os envolvidos.

A fábula “Os seis cegos e o elefante” (Conto do budismo chinês, extraído de Domingues - Joelza Ester – “História em Documento. Imagem e texto”. São Paulo: FTD, 2012.) demonstra, muito bem a situação em que nos encontramos, hoje, no Brasil.

Seis homens, todos cegos, estavam tendo contato com um elefante, pela primeira vez. Cada um procurou fazer uma ideia de como seria esse novo ente, por observação, a partir de sua própria experiência e percepção.

O Primeiro, ao se chocar com o corpo amplo e forte do elefante, imediatamente exclamou: “O elefante é semelhante a um muro”!

O Segundo, pegando na presa, gritou: “Oh! Para mim, esta maravilha é muito semelhante a uma lança!

O Terceiro aconteceu de pegar a sinuosa tromba com sua mão; e assim, falou: “O Elefante é muito parecido com uma cobra!

O Quarto esticou a mão ansioso e apalpou em torno do joelho, e disse: “É muito fácil! Está bem claro que o Elefante é semelhante a uma árvore!

O Quinto, por acaso, tocou a orelha, e disse: “Até um cego pode dizer: O elefante é muito parecido com um leque!”.

O Sexto pegou na cauda que balançava e disse: “O Elefante é semelhante a uma corda!”

E, assim, esses homens discutiram por muito tempo. Cada um, com sua opinião excessivamente rígida e forte, preso a convicções adquiridas por suas experiências, sem levar em conta as opiniões divergentes. Sem tolerância, poderiam ficar discutindo a vida inteira, sem chegar a conclusão alguma.

Cada um estava, em parte, correto, porém, o grupo inteiro estava completamente errado!

O “sucesso” é mais do que a soma das inteligências envolvidas. Não adianta simplesmente somar a “visão” de cada um, permanecendo em total ignorância das diferenças. A diversidade de opiniões que contêm parte da verdade demostra o valor da troca de experiências. Todos discutem sobre um elefante que nenhum deles viu!

O futuro do Brasil é mais do que a soma das partes imaginadas por cada uma das individualidades envolvidas, por mais competentes e honestas que sejam. Nós todos somos os cegos e “o futuro” é o nosso Elefante. Como nenhum de nós, sozinho, tem a “Visão” para enxergar o problema, por inteiro, se não nos unirmos, não conseguiremos construir o nosso futuro.


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