O holocausto sírio e uma lição de Jornalismo

Atualizado: Fev 17

Por CÉLIA LADEIRA MOTA


Não sei se a palavra "holocausto" se aplica a mortandade do que se convencionou chamar de guerra na Síria, mas parece definir o sofrimento enorme imposto a população síria, com participação de tropas norte-americanas, que se retiraram há uma semana para permitir a entrada em ação de tropas turcas e, numa contrapartida, o envio de militares e armas pelo governo russo em apoio ao presidente Assad. Para a população não importa quem entra ou sai do país, mas resta a esperança de que, um dia, o conflito com várias faces tenha solução.

Na semana que passou, as cenas deste holocausto/genocídio foram vistas na televisão brasileira a partir de imagens produzidas por agências internacionais, que mostram cenas de ataques e de alvos atingidos. Nos telejornais da TV Bandeirantes, porém, as reportagens do jornalista Yan Boechat mostraram o drama real em cidades do norte da Síria, em territórios ocupados por curdos e invadidos pela Turquia. E na reportagem da quarta-feira, 16 de outubro, da série Campo Minado, Boechat mostrou como vivem 50 mil crianças em campos de refugiados na região. São os filhos de extremistas do Estado Islâmico, capturados ou mortos em combate.


As imagens são chocantes. Todos vivem em tendas fechadas, onde estrangeiros não podem entrar. São mulheres e seus filhos, árabes ou não, que foram envolvidos em sua maioria pela propaganda do Estado Islâmico e deixaram a vida confortável em países europeus para seguir os militantes muçulmanos radicais do Isis. Uma sueca fala sobre como foi parar na Síria, outras mostram documentos ingleses e querem voltar a seus países. Mas são tratadas como perigosas aliadas do Isis e abandonadas à própria sina.


Enquanto mostrava o impacto da guerra em novo ataque da Turquia, Boechat viveu um raro momento de alegria da população síria com o anuncio de uma trégua acertada pelo governo dos Estados Unidos com o primeiro ministro turco Recep Tayyip Erdogan. Toda a população de várias cidades foi para as ruas comemorar. Este momento de paz se deveu à conversa telefônica entre Trump e Erdogan quando o presidente norte-americano pediu uma trégua no avanço militar. As cenas de devastação causadas pela invasão, os registros de mortos e feridos e os deslocamentos de milhares de pessoas obrigadas a deixar suas casas expuseram o presidente Trump a duras críticas de congressistas, inclusive de parlamentares do seu próprio partido.


O papel do jornalista


Uma das tarefas mais difíceis do Jornalismo é participar in loco, ao vivo e a cores, de uma guerra moderna, quando nem sempre os aviões são tripulados e as bombas são comandadas à distância pelas tropas. Na maioria dos ataques os atingidos são idosos, mulheres e crianças, e toda a população que não tem como fugir da própria terra. Na tarefa de reportar os fatos os jornalistas arriscam a própria vida.


Acreditar que o jornalista “vai impactar o mundo” com seu trabalho é “uma balela”, afirma o jornalista Yan Boechat em entrevista à Adriana Carranca, colunista de O Globo. “Eu acho que os jornalistas, em alguns momentos, assumem esse papel por uma questão de vaidade”, avalia Boechat. Para ele, seu papel como jornalista serve de registro histórico. Especialmente em tempos de guerra.


No seu registro diário de uma guerra sangrenta, Boechat cumpre uma lição simples dada por Ernest Hemingway, escritor e jornalista na guerra civil espanhola: o jornalista precisa estar presente onde a notícia acontece. Hoje, a tendência nas redações de jornais e telejornais é acompanhar os fatos de uma posição tranquila a frente do computador. Para exemplificar, vemos hoje diversos jornalistas longe dos acontecimentos, alimentando-se das agências internacionais seja para falar da guerra na Síria ou de assuntos em locais remotos. Poucos estão onde deveriam estar.