O ISOLAMENTO QUE AS PESSOAS NÃO PEDIRAM

Atualizado: 27 de Abr de 2020

Por ANA LUISA MOTA


No Brasil, entre 1924 a 1986, foi utilizado o isolamento compulsório para os doentes com hanseníase (lepra) para o controle da doença. Essas pessoas eram enviadas para colônias de leprosários devido ao medo da contaminação em todo o país. Quanto mais distante elas ficassem, melhor. Muitas colônias tinham até linha de trem para levar os doentes marcados pela doença. Sim, os doentes eram marcados como se fossem gados. E ao chegar, recebiam números na pele como os judeus em Auschwitz.


O primeiro leprosário surgiu no Brasil na época colonial, em 1714, no Recife. A partir daí os estados que mais concentraram as colônias foram São Paulo e Minas Gerais. Entre 1920 e 1950, foram inauguradas quarenta colônias em todo o Brasil. A regulamentação dos leprosários aconteceu na década de 1920, e estes espaços passaram a ser organizados como uma cidade, com escolas, praças, dormitórios, refeitórios e até delegacias, prisões e cemitérios. Em 1949, o isolamento forçado dos hansenianos em leprosários virou lei federal, que vigorou até 1986.


Muitas vítimas da hanseníase continuam vivendo nessas colônias hoje em dia. Essas pessoas ainda são completamente ignoradas pela sociedade, que tem medo de se contaminar. O Hospital Curupaiti, por exemplo, antiga colônia situada em Jacarepaguá, Rio de Janeiro, criada em 15 de outubro de 1929, ainda abriga 200 ex-pacientes. Alguns chegaram lá com hanseníase há meio século, já foram curados, mas não têm para onde ir e nem podem trabalhar, devido à discriminação da população, que ainda não aceitam, ou não sabem que a hanseníase é uma doença como outra qualquer, que já tem tratamento e cura.


Um resgate histórico


Em 2017, a jornalista e escritora Manuela Castro lançou o premiado livro “A Praga – O Holocausto da Hanseníase. Histórias emocionantes de isolamento, morte e vida nos leprosários do Brasil”, devido a uma série de reportagens que ela fez para a TV Brasil sobre os leprosários e as suas vítimas.


Em seu livro, Manuela faz um minucioso relato sobre a história da lepra no mundo, como chegou ao Brasil, como os doentes eram diagnosticados e enviados aos leprosários, e a triste realidade deles nas colônias com tratamentos desumanos, pois o propósito inicial não era fornecer tratamento, até porque o conhecimento médico sobre a doença ainda era muito limitado. Os leprosários serviam apenas de um lugar para expulsá-los das ruas, da sociedade e enviá-los para bem longe. A sua obra traz diversas ilustrações e comoventes depoimentos das vítimas e suas famílias, que foram desintegradas devido ao preconceito, e que existe até hoje em relação aos ex-internos, que ainda sofrem com o estigma dessa doença.


O livro “A Praga” é leitura obrigatória, pois é um documento da maior importância, escrito com leveza e muita sensibilidade e de fácil compreensão. Uma leitura rápida, de alto impacto que nos proporciona esclarecimentos sobre uma doença que até hoje causa temor nas pessoas. Seu livro nos ensina que devemos ter menos preconceito, mais compaixão, mais amor ao próximo, tão ensinado e pregado por Jesus há dois mil anos, quando curava os leprosos nas ruas.


O Isolamento nos Dias de Hoje


O debate que nos rodeia nas últimas semanas, com certeza, é a questão do isolamento social. Estamos vendo um excesso de discordâncias no meio político e empresarial a respeito de se continuar ou não o isolamento, bem como, reivindicações da população brasileira, como aconteceu no último domingo em várias cidades, pelo seu fim e a volta ao trabalho. Além da impaciência das pessoas de ficarem em casa e voltarem às ruas. O que se observa é uma queda percentual do isolamento nas grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.


Nessa conjuntura atual, acredito que o isolamento social é uma das soluções mais eficazes para evitar o contágio e a proliferação do coronavírus, que ainda está em crescimento no país. A iniciativa de se isolar socialmente, de forma harmônica, até que as chances de contágio diminuam, consiste em responsabilidade social, e tem consequências positivas para toda a sociedade. Temos a opção de escolher o certo para protegermos a nós todos. Ao contrário de uma época na qual muitas pessoas não tiveram essa opção. Um isolamento que as pessoas não pediram.


Para terminar: fique em casa!

Castro, Manuela

A Praga – O Holocausto da Hanseníase. Histórias emocionantes de isolamento, morte e vida nos leprosários do Brasil

São Paulo – Geração Editorial – 2017 – 278 págs.

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