O QUE SERIA UM INFERNO TORNOU-SE UM CÉU

Por BENTO CRUZ

Coluna Histórias de um Velho Marinheiro


É comum no meio militar que ocorram transferências. Assim que eu terminei o meu curso de formação para sargento, não foi diferente. Fui designado para ir para o Comando do 6º Distrito Naval em Ladário.


Na época em morava no Rio de Janeiro e o comentário entre os colegas, era que quem ia para Ladário, no Mato Grosso do Sul, ia de castigo. Eu tentei não me deixar impressionar, evitei criar um "pré-conceito” com o lugar.


Em pouco tempo estávamos, eu, minha esposa e meu dois filhos: Ricardo e Rejane em uma nova casa na vila militar. Rapidamente fizemos amizade com os vizinhos, meus filhos estavam brincando com as outras crianças e éramos chamados para diversos eventos.


Em menos de trinta minutos era possível estar em Puerto Suárez, era comum no final do mês irmos para a Bolívia, onde eu comprava um metro de bala para cada filho, enquanto abastecia o carro.


Por Ladário estar praticamente no coração do pantanal sul-mato-grossense, o que não faltava eram pescarias e caças. A riqueza era abundante, assim como os bons papos e a alegre vizinhança.


Mas nem tudo eram flores, faltavam recursos. Na época não havia uma boa estrutura hospitalar e quando minha esposa engravidou da minha caçula, pedi transferência, pois os partos dela eram sempre de alto risco.


Viemos para Brasília, formamos novos amigos, meus filhos se formaram, mas sinto saudades do que vivi no meu “castigo”. Se eu tivesse chegado no meio do pantanal com a visão de que lá seria um inferno, talvez não tivesse aproveitado tanto.


Por vezes, é preciso não escutar. Dar chance para conhecer um lugar ou uma pessoa, pois a visão de um e a experiência de outro, pode não ser a sua. É importante ter oportunidade para criar sua própria ótica sobre a situação.


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