O QUE UM PAI FAZ ECOA EM SUA DESCENDÊNCIA

Por BENTO CRUZ

Coluna Histórias de Um Velho Marinheiro


O último suspiro de vida do meu pai foi em meus braços, ele teve cirrose hepática, mas apesar de gostar de beber, nunca o vi embriagado e nem fora de sua razão, maltratando minha mãe, a mim ou a meus irmãos.

Ele gostava de ir para uma bodega de um amigo da família. Lá ele bebia, mas também trabalhava, vendia suas carnes. Tinha suas horas de lazer, mas sempre ficava preocupado no sustento da família, de forma que sua responsabilidade era sempre maior do que sua vontade de curtir com os amigos.

Nas lembranças dos nossos momentos juntos, ficam os registros das idas para Natal de trem para vender carnes. Lá trabalhávamos juntos e como estávamos fora da nossa região, ele não bebia. Sempre foi muito responsável.

Nunca apanhei do meu pai, o mesmo não aconteceu com o meu irmão, que prendeu a jogar. Infelizmente as correias de couro cru que batiam nas costas dele não o ajudaram a perder o vício.

Meu pai era atento aos filhos, e pedia aos amigos que sempre o alertasse sobre o que estes fizessem na rua. Como ele era bem relacionado, alguém sempre o avisava quando o meu irmão estava na casa do barbeiro, onde funcionava um cassino clandestino.

O dinheiro do meu irmão e o meu vinha do estímulo que tivemos desde cedo para termos o nosso dinheiro. Isto despertou nossa independência e deu segurança aprendermos a nos virar para sobreviver.

Tive a sorte de ter um pai responsável, incentivador, atento que apesar de seu fraco para bebida, sempre manteve autodomínio. Ele morreu com um pouco mais de setenta anos, ele era o caçula entre seus irmãos e foi o primeiro a morrer.

Ele faleceu, mas seus exemplos não. Acabei me tornando um homem com o perfil similar ao do meu pai. Fiz o que pude para incentivar meus filhos e estar próximo a ele.

Entre as lembranças da minha filha, Lucineide, por exemplo, que me ajuda a deixar o registro das minhas histórias, está que todos dos dias, eu a acordava com uma poesia, um verso, mas ele sempre terminava da seguinte forma: minha filha, os passarinhos, que não devem nada a ninguém, já estão acordados... E você dormindo... Uma forma diferente de dar senso de responsabilidade e de avisá-la que estava na hora dela buscar sua independência.

Apesar dos meus filhos não terem conhecido o avô, o que ele foi ultrapassou as fronteiras da vida e chegaram aos meus filhos. O que um pai faz ecoa em sua descendência.


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