OPERAÇÃO FAKENEWS: BUSCANDO VERDADES?

Por CÉLIA LADEIRA MOTA

Na Grécia clássica, os filósofos eram mais modestos e se limitavam a discutir a diferença entre verdade absoluta ou verdade relativa. Sócrates, na sua humildade epistemológica, preferia a relatividade: “não sou dono da verdade. Busco o conhecimento”. Seria interessante que este caminho fosse adotado pela atual Operação Fakenews, solicitada à Polícia Federal pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Que verdades ou mentiras são o alvo da operação?


Numa época de pouco contato físico e muito uso do espaço virtual para a comunicação, as verdades vêm manchadas ou condicionadas pelas referidas fontes: quem disse? Quem desmentiu? Quem publica? Os alvos são “bolsonaristas?”. Esta palavra, que começa a entrar no vocabulário de repórteres de televisão, representa em si uma correspondência errada.


Deputados e seguidores não são “bolsonaristas”. No caso dos políticos, são pessoas com mandatos e pertencentes a partidos políticos que assumem posições de apoio ao governo e deveriam ser chamadas de “governistas”. No caso dos seguidores que têm espaço fixo em redes sociais são cidadãos, que exercem seu direito de manifestar apoio ao governo.


O que tudo isto tem a ver com a verdade? E de que verdade estamos falando? Com certeza a operação busca não verdades, mas mentiras. Por que? Podemos considerar manifestações de apoio ao governo como mentiras? E podemos classificar como verdadeiras todas as acusações ao governo federal e a seu presidente? O complicador das respostas tem a ver com a dificuldade de buscar a verdade, ampliar o conhecimento, partindo de um viés ideológico ou partidário.


Um primeiro passo seria investigar quem está encarregado de publicar os acontecimentos, sejam eles sociais, políticos ou econômicos. Investigar as empresas jornalísticas pode ser um bom começo. Como os fatos são relatados? Que verdades são ditas ou negadas? As reportagens têm correspondências com os fatos? São versões dos fatos? Versões marcadas por posições favoráveis ou contrárias aos protagonistas dos fatos? Este caminho já mostra quão difícil é situar o que é fakenews. Versões favoráveis ou adversas aos acontecimentos podem ser classificadas como mentiras, fakes? Com certeza são versões. Mentirosas, falsificadas?


Como jornalista, aprendi cedo na vida que os fatos precisam ser contados, doa a quem doer.


Com todos os seus protagonistas ou antagonistas. Como professora de jornalismo lembro esta prática aos alunos. É um caminho de busca da verdade, de compreensão da vida na terra, com seus desafios e imensos problemas. O texto jornalístico funciona como um farol a iluminar as mentes humanas, fazer as pessoas pensarem, fazer os próprios patrões das empresas de Comunicação aprenderem que a notícia vale mais do que a publicidade. Notícias tendenciosas sujam a biografia de quem as escreve. Perde-se um grande valor, que é o da credibilidade. Fica-se pequeno, seja o jornal, a TV ou o repórter.


Esta regra vale também para os autores de rede social. A fidelidade aos fatos dispensa adjetivos e tem efeito importante na construção de uma visão política equilibrada e de aprofundamento dos problemas do país. A guerrilha da informação não atrai ninguém.


Significa desrespeito aos que pensam diferente, aos que já têm posições políticas consolidadas e a todos os que apenas buscam ser informados corretamente.


Quando tudo passa a ser fakenews e o leitor ou ouvinte tem que buscar a verdade num cipoal de notícias falsas, ou de orientação política dirigida, há um desserviço ao país.


Esperemos que a Operação Fakenews da Polícia Federal consiga resgatar o sentido da palavra ‘verdade’, com a humildade que Sócrates mostrou ao tentar definir a verdade há dois mil anos.


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Conheça a nossa articulista Célia Ladeira e leia outros artigos de sua autoria:

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