Os 50 anos do Jornal Nacional

Atualizado: 17 de Fev de 2020

Por CÉLIA LADEIRA MOTA

A televisão é, sem dúvida, um espaço público de construção de narrativas sobre o Brasil. Neste espaço, o Jornal Nacional, exibido diariamente às 8,30 hs. da noite, ocupa um lugar especial. As representações sobre o país, difundidas ao longo de 50 anos, constroem o sentido de pertencimento a uma nação assim entendido pela maioria da população de norte a sul do Brasil. Foi sempre assim ou em vários momentos estas narrativas reproduziram um discurso oficial que impôs uma visão hegemônica a partir de grupos políticos dominantes? Que outras representações falaram de um Brasil mais sonhado, mais próximo do nosso próprio imaginário de nação?


Um aspecto importante da linguagem do telejornal é o da construção de identidades por meio das imagens. Cada imagem tem sua carga icônica que produz significados a partir de um mapa cultural de interpretação por parte dos telespectadores. Imagens de uma queimada na Amazônia são interpretadas por moradores da região Norte de forma diferente dos que habitam outras regiões do país. Mas um significado comum nos aproxima como brasileiros: a Amazônia é um bem precioso que não podemos perder.


Os produtores de notícias do Jornal Nacional percebem esta dimensão cultural? Os preferem um enfoque político em que destacam as divergências entre o governo e grupos ambientalistas ou antagonistas? Posições divergentes são parte do noticiário, mas limitam a percepção de um acontecimento no seu sentido mais amplo: nosso imaginário de nação. Um medalhista de ouro numa competição olímpica nos mostra um brasileiro  dando o sangue para conseguir uma vitória difícil. Nos Jogos Paraolímpicos de Lima, agora em 2019, o recorde inigualável de medalhas nos faz sentir orgulho de sermos brasileiros, quando tantos problemas ainda permanecem insolúveis.


A questão que se impõe na análise do Jornal Nacional é se de fato ele fala para todo o país, ou deixa que todo o país fale através de suas reportagens. Quão nacional o JN é?


Estamos marcando fronteiras entre regiões ou entre países? Afirmar a identidade significa marcar fronteiras não só geográficas, mas culturais. Significa criar inclusões, buscar a união em causas comuns, construir uma meta-narrativa, uma real dimensão da identidade nacional. Foi sempre assim na história do JN?


O JN na História


No livro 60 anos de Telejornalismo no Brasil, produzido pelo grupo de pesquisa em Telejornalismo da SBPJOR, pode-se compreender a aventura em que se lançou o Jornal Nacional, em 1º de setembro de 1969, quando a TV Globo anunciou que “vamos lançar um telejornal para que 56 milhões de brasileiros tenham mais coisa em comum além do simples idioma”. (2010, p.60). O lançamento do telejornal foi viabilizado pelas ligações por micro-ondas e as primeiras transmissões via satélite. O primeiro noticiário do JN foi transmitido ao vivo para o Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Brasília.


Logo no começo, o JN enfrentou o estigma que acompanharia a TV Globo por muitos anos: uma suposta afinidade ideológica com o regime militar. Ao lado do rigor no planejamento da cobertura jornalística o telejornal se esmerou no aperfeiçoamento técnico e nos cuidados com o visual, buscando a interação entre cenário e apresentadores. O diretor-geral da Globo na época, José Bonifácio, o Boni, queria apresentadores de boa voz, timbre bonito e boa aparência. O apresentador símbolo do programa foi Cid Moreira, cuja voz parava o Brasil de norte a sul, às oito horas da noite naquela época. Até o final da década de 80, muitos locutores se revezaram na bancada do JN, todos do sexo masculino.


Para driblar o controle do regime militar, o noticiário adotou o estilo “manchetado”, sem entrar em muitos detalhes dos fatos, mas apresentando ao telespectador um informativo em estilo ágil e de fácil absorção. Esta cobertura sóbria e fria durou até a campanha das Diretas. O silêncio da Globo e das demais emissoras foi quebrado em 1982 quando o  presidente das Organizações Globo, Roberto Marinho, decidiu tratar o assunto em rede nacional “em face de uma paixão popular tamanha”, como afirmou na época.


Um tom mais liberalizante foi adotado na cobertura das eleições de 1989, as primeiras eleições diretas depois do regime militar. Enfrentavam-se Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva. A TV-Globo transmitiu o debate entre os candidatos, mas uma edição do Jornal Nacional na véspera do pleito foi considerada vantajosa para o candidato Fernando Collor, que acabou ganhando a eleição. A edição causou o afastamento de Armando Nogueira da direção geral de Telejornalismo da emissora.


O futuro do JN


O JN entrou no século 21 com novos cenários, mais liberdade informativa, agregando a presença feminina, primeiro de Fátima Bernardes e depois de Renata Vasconcelos na bancada do estúdio. Seu futuro, com certeza, continuará ligado a decisões que reforcem a veracidade da informação, com liberdade de vozes alternativas, e ao aprofundamento da compreensão dos acontecimentos. As amarras que limitaram o JN no passado não devem impedir a liberdade informativa.


Como afirma a pesquisadora Ana Carolina Temer, “o telejornalismo é o espaço pelo qual a humanidade observa a si mesma” (2010, p.121).  Seu modelo está diretamente ligado às mudanças sociais e políticas que o Brasil já está enfrentando ou irá enfrentar. Se a tecnologia vai permitir que o telejornal seja visto para além da televisão, ela ainda vai permitir liberdades de transmissão, ao vivo, pouco aproveitadas no momento.


O futuro do Jornal Nacional e do telejornalismo em geral está no mundo real, na cobertura ao vivo e em tempo real dos fatos. O compromisso é com o telespectador, sem erros de informação, sem amarras ideológicas ou tendenciosas porque estas as pessoas percebem e rejeitam. Ao comemorar seus 50 anos, a equipe do JN convidou apresentadores de todas as regiões brasileiras para ocuparem a bancada no estúdio. Que esta decisão nos leve a imaginar um noticiário ainda mais voltado para todo o país, em que os seus habitantes se sintam representados nesta grande narrativa da nação.