OS NÚMEROS COMO PARTE DO IMAGINÁRIO POLÍTICO

Por ALFREDO BESSOW


Em tempos de pandemia, a manutenção do clima de medo é fundamental para os objetivos daqueles que precisam negar a realidade como princípio básico para a manutenção dos seus interesses.


Eu nunca parei para pensar em quantos livros li ao longo da minha vida. Pelos cálculos que me atrevo a fazer, sei que foram bem mais de mil – sem contar gibis de Tex, Asterix, Tarzan e tantos outros. Muitos destes livros marcaram ao ponto de recordar detalhes e pormenores.


Há aqueles que voltam à memória quando os encontros em livrarias e faço a reconexão mental a partir de detalhes – como por exemplo eventuais ilustrações ou alguma tradução mais especial.


Há, ainda, aqueles dos quais restam alguns ensinamentos, frases que ficam, abordagens diferentes que de algum modo se incrustam em nossos referencias ainda que depois não seja possível saber resgatar nada além de fragmentos.


Em uma viagem de ônibus entre Florianópolis e São Paulo eu encontrei um livro de capa verde na bolsa da poltrona. Conversei com o motorista e ele apenas me disse que aquele livro deve ter passado despercebido por quem fizera a limpeza do veículo na garagem. Voltei com o livro e me atraquei a ler de tal modo que ao chegar em São Paulo tinha lido todo.


Mesmo com o prazer da sua leitura, acabei deixando o exemplar na esperança que outra pessoa pudesse ter a mesma oportunidade que eu. Hoje, me arrependo, porque não lembrar ao certo o título e nem o autor.


E neste livro está uma das frases que considero muito atual – claro que não literal, mas dentro daquilo que ainda me lembro. Discorria o autor sobre a manipulação do povo pela desinformação e dedicou um capítulo sobre o uso dos números. Sentenciava ele: para impactar, os números devem ser sempre superlativos, porque ninguém está interessado de onde e como os números foram formados. O povo, dizia ele, não é capaz nem de somar percentuais eleitorais, o que pensar então em uma sequência de dados estatísticos.


E observo que esta estratégia vem sendo aplicada no caso da soma dos mortos por coronavírus em nível nacional. Via de regra temos dois ou três dias com números mais baixos e depois, números estonteantes e que chocam – porque não é enfatizada a informação de que tais números não se referem àquele dia, mas uma atualização dos dados repassados pelas secretarias estaduais de saúde.


É simples a estratégia: a eventualidade de termos digamos dois dias com 500 mortos perde relevância dentro do jornalismo hoje praticado – ainda mais se no terceiro dia tivermos como forjar 1.400 mortos – por exemplo. Assim, manipula-se a informação como forma de chocar e constranger, de assustar e manter o clima de histeria que torna o cidadão refém de estratégias de “encarceiramento” que já se mostraram inadequadas.


Posso estar vendo fantasmas, mas o ciclo se repete ao longo dos dias. Basta observar os dados e acompanhar as manchetes…