Ouve conselho, ou coitado

Atualizado: Fev 17

Por LEONARDO MOTA NETO

(in memoriam)


Quem não ouve conselho, ouve coitado – costuma repetir a sabedoria popular. Nessa linha estariam simpatizantes da candidatura Collor de Mello, que há tempos o alertam para a necessidade de investir na TV, pois nela é que seria decidida a eleição. Outro conselho era o de que Collor se dedicasse mais à apresentação de um programa de governo claro e objetivo, em vez de perder tempo em efetivar alianças regionais desnecessárias com políticos de que nada lhe acrescentaram – e até empanam a imagem “antipolítica” que inicialmente detinha. Um terceiro conselho no ouvido foi o de que se concentrasse no Nordeste, neste turno final, pois o segundo maior colégio eleitoral do País ficou inteiramente entregue a Lula, enquanto Collor se concentrava no Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.


Hoje, Collor amarga uma veloz perda de cotação nas pesquisas de intenção de votos porque deixou de lado a TV, o programa de governo e o Nordeste. Os três itens estão tendo capitalização mais efetiva por parte de Lula, com um programa de televisão que sempre foi criativo e emocional. Enquanto o PRN já mudou duas vezes sua equipe de programa, por paradoxo, já que Collor tem inegavelmente uma melhor postura no vídeo, o programa corre tranquilo e competente, não se sabendo nem mesmo ao certo quem o produz.


Quanto às alianças políticas regionais, Collor vem perdendo muito tempo ao receber líderes estaduais que não vão lhe dar votos. Estão mais se servindo do candidato para fins de fixar espaços nos estados, do que servindo a Collor. Como precisa de fatos novos para manter-se no noticiário, o candidato aceita essas alianças com políticos conservadores, o que contribui para lastrear sua imagem de direita. Aliança efetiva é aquele que se estabelece com líderes detentores de mais de um milhão de votos comprovados no País, se não o esforço de nada vale. A eleição continua sendo falação entre o candidato e o povo, pouco interessando se nos estados Collor está ao lado deste ou daquele chefe político. Muitas vezes até prejudica.


Finalmente, a questão do esquecimento do Nordeste neste segundo turno é um aspecto grave da campanha. A região está sendo palmilhada pelos militantes do PT, nos mais distantes grotões e cafundós. Havia, no entanto, um crédito para Collor, bastando que visitasse a região e afagasse seu ego. Houve um erro de avaliação, pois se tivesse dirigido seu esforço mais para o Nordeste e o Norte, não teriam faltado políticos para encherem seus palanques nos comícios, e o povo para escutá-los. No Sudeste e Sul cada político é uma legenda viva, e fica mais traumático para a história deles subir ao palanque com este ou aquele, haja vista a resistência de Mário Covas e Leonel Brizola em aceitar tomar parte nos comícios de Lula.


(Publicado no Estado de São Paulo – Outubro de 1990)

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