OVO DO CAFÉ NA ROÇA

Por ANDRÉ R. COSTA OLIVEIRA



Coma bem cedinho, quente, com café, pão e tapioca. E aproveitando a linda vista da colina e o cheiro do orvalho nas campinas, que estão ainda úmidas.

Três ovos-caipira, frite-os na manteiga de garrafa todos ao mesmo tempo. Deixe que as claras queimem nas bordas, mas mantenha as gemas moles.

Chegando ao ponto de sua escolha, corte fatias finas de requeijão escuro para que derretam.

Acrescente pouco sal, cominho e pedaços mínimos de pimenta de cheiro.

Decore o prato com um ramo de alecrim, colhido obviamente em sua horta.


“O meu nome é Severino,

como não tenho outro de pia.

Como há muitos Severinos,

que é santo de romaria,

deram então de me chamar

Severino de Maria

como há muitos Severinos

com mães chamadas Maria,

fiquei sendo o da Maria

do finado Zacarias.


(...)


E somos Severinos,

iguais em tudo na vida.

Morremos de morte igual,

da mesma morte Severina,

que é a morte de que se morre

de velhice antes dos trinta,

de emboscada antes dos vinte,

de fome um pouco por dia.”


(João Cabral de Melo Neto, in Morte e Vida Severina, 1955)


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