PAI: O DESAFIO DE ESPELHAR-SE E SER ESPELHO

Por ALFREDO BESSOW

Coluna Asas do Coração


Pode soar contraditório, mas meu pai que nunca se permitiu o direito de sonhar, inoculou em mim, desde a mais tenra infância, a semente da curiosidade, de saber o que está mais além daquilo que os olhos veem, que os ouvidos ouvem e até mesmo de tudo que o coração sente.


E ainda hoje, passados mais de 21 anos de sua morte, eu o sinto vivo a me alimentar, a me instigar a ir mais além das coisas aceitas e consensuadas como normais, transcender limites e parâmetros de normalidades – mas, estranhamente, me sinto feliz em ser refém de tantos de seus ensinamentos e de coisas que foram sendo repassadas na forma de conversas e de silêncios.


Por vezes, lembro da sua voz a me dizer coisas já tantas vezes ouvidas, escutadas e que, de repente, no tempo afora, adquirem um sentido novo e único e fico a me perguntar: não terá sido isto que ele sempre quis dizer e eu não tive como entender?


Em cada uma de nossas muitas despedidas ele sempre repetia a expressão “mein lieber sohn”, antes de emendar ainda abraçado em mim: “Que deus te guie e te proteja – principalmente de ti”. Confesso que essa frase ressoa em meus ouvidos cada vez que fecho o portão da minha casa e vou para a luta neste mundo secular e cada vez mais perversamente desumano.


Não sei se isto acontece com outras pessoas, mas sinto meu pai mais vivo e mais perto de mim agora que já não o tenho mais ao alcance de um telefonema, de um abraço. Ficou mais vivo em meu coração, numa saudade que oscila entre a esperança e o conforto e confesso que o sinto muitas vezes em meus sonhos e de soslaio tento buscar o seu olhar diante de uma situação que demanda uma tomada de decisão de minha parte.


É como se ele, de forma perene, mantivesse o seu jeito ao mesmo tempo seco, prussiano de quem não se permitia ir além das realidades que conhecia e que de certa forma dominava, para me dizer: pode ir, mas cuidado - principalmente contigo.


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