PARA QUE UM SUBMARINO ATÔMICO?

Por Romulo F. Federici, exclusivo para CARTA POIS

Este tema é um sub-item de uma análise mais ampla e estratégica sobre DEFESA NACIONAL que produzimos há cerca de um ano, tema para o qual reina uma preocupante ignorância no seio da opinião pública.

A maioria dos “trabalhos” publicados na imprensa são de uma superficialidade irritante, desprezando-se fundamentos e pressupostos fundamentais do tema.

Fizemos, especialmente para a CARTA POLIS, um trabalho amplo e detalhado sobre geopolítica e defesa, intitulado O CONTEXTO DA ORDEM INTERNACIONAL, DA GEOPOLÍTICA E O BRASIL, cuja leitura recomendo, fortemente.

Naquele trabalho, iniciei dizendo:

“Como venho repetindo em vários outros trabalhos publicados, o Brasil, historicamente, sempre manteve uma política extremamente irresponsável no que tange a assuntos de defesa, frequentemente com o pressuposto apequenado de que se trata de “gastos supérfluos”.

Para tentar justificar tal sandice, ela vem sempre acompanhada da mesma ladainha: “esse dinheiro poderia ser desviado para a educação, saúde e políticas sociais”, etc…, como se uma coisa dependesse da outra ou como se não houvessem orçamentos específicos.”

Seria o ponto de partida para não iniciados nos temas do gênero num momento em que governo BOLSONARO que já declarou sua prioridade para defesa nacional. Finalmente alguém tem senso de responsabilidade para isso.

Mas o foco deste trabalho agora, a pedido do editor, são os submarinos que estão sendo construídos pelo Brasil, suas motivações e conveniências principalmente no que tange à construção de um submarino atômico.

Inescapável dar algumas pinceladas sobre os perigos, cada vez maiores, que corre o Brasil na qualidade de detentor das riquezas que possui, muitas com exclusividade e que faltarão em todo o mundo em poucas décadas.

Assim que esses itens fundamentais aos povos começarem a rarear, os olhares, já cravados nas reservas do Brasil, transformar-se-ão em ações agressivas para, de qualquer modo, sugarem daqui o que lhes faltará.

Isto sem falar nos movimentos internacionais para internacionalizar grande parte da Amazônia, minimizando ou acabando com a soberania do Brasil sobre essas áreas sob o pretexto de proteção às florestas e tribos indígenas.

OS MOVIMENTOS INTERNACIONAIS DE INGERÊNCIA NA AMAZÔNIA.

Tais movimentos são organizados por fortes organismos internacionais e apresentados como entidades de “ajuda humanitária e/ou ecológica”. Com essa face cândida preparam terreno para uma futura ocupação de espaços vitais do Brasil.

O TRIPLO A é uma enorme faixa de terra internacionalmente pretendida na Amazônia, abarcando, entre outras coisas a bacia amazônica, que abriga 20% da água doce do mundo, cada vez mais rara e preciosa. Desapareceria nossa soberania que seria substituída por uma autoridade internacional, num formato disfarçado para tornar-se palatável uma invasão e ocupação real de território brasileiro, para o respeitável público enganado.

Na área pretendia pela comunidade internacional, reparamos que a GUIANA FRANCESA seria preservada intacta, por motivos óbvios, já que a FRANÇA seria uma das potências integrante dos movimentos “internacionalistas”.

Importante lembrar que além a faixa o TRIPLO A, estariam sujeitas ao mesmo tipo de ocupação, todas as reservas indígenas espalhadas pelo país, que teria de conviver com vária e extensas “ilhas” em seu território sob domínio internacional.

Por ocasião daquele artigo, transcrevi um trecho importante e elucidativo de publicação feita na revista PASSADIÇO (Marinha do Brasil):

“A excelente revista PASSADIÇO (edição 32, ano XXV, pág. 24), publicação anual do Centro de Adestramento Almirante Marques de Leão de nossa MARINHA DE GUERRA, publicou um primoroso artigo de autoria do Capitão de Corveta Fabio ANDRADE Batista dos Santos, sob o título OPERAÇÃO UNIFIED PROTECTOR NA LÍBIA: ALGUMAS LIÇÕES.

Ao lado de considerações de ordem militar, política e geopolítica, esclarece:

O conflito líbio ressuscitou debates sobre os conceitos de “direito de ingerência”, sempre utilizados de acordo com os interesses dos protagonistas. Jamais se dispôs de um consenso jurídico internacional sobre o tema, e eventos semelhantes, como os conflitos na CHECHÊNIA e GEORGIA, por razões óbvias não tiveram a mesma “preocupação humanitária”. O desprezo pela soberania westfaliana está em voga no mundo pós-guerra-fria, sempre de acordo com o xadrez geopolítico.

E prossegue analisando como as potências da OTAN, usaram o pretexto de defesa dos rebeldes para depor Kadafi e terem o controle da Libia, rica em petróleo.

É verdade, a busca de recursos naturais deverá ser a razão principais de próximas guerras porque a busca de recursos naturais deverá ser a razão principal de guerras futuras.

É a nova realidade do mundo e, quem não estiver preparado vai se lamentar amargamente.”

Outras investidas das forças internacionais estariam em busca de minerais estratégicos e outros insumos que, com aumento de consumo e baixa de estoques, tais como:

Alimentos: O crescimento da população mundial, que já ultrapassou os seis bilhões de habitantes e começa a tornar escassos diversos recursos naturais, o que se tornará crítico nas próximas décadas pois a produção de alimentos será insuficiente em prazo relativamente curto.

Energia: Veremos, também, um aumento galopante no consumo de energia o que conduzirá o mundo cada vez mais para opções alternativas de geração, como a energia atômica em face da exaustão de recursos hídricos, dos limites para uso de usinas termelétricas e do potencial também limitado da energia eólica, biomassa e solar que sempre serão alternativas suplementares.

Minerais estratégicos: Temos aqui no Brasil das mais importantes reservas dos principais minerais demandados pelo mundo, tais como os seguintes com a indicação o percentual de cada minério em relação à produção mundial: Nióbio: 1º (95%); Ferro: 2º (17%); Manganês: 2º (21%); Tantalita: 2º (17%); Alumínio (Bauxita): 3º (12,4%); Crisólita: 3º (9,73%);Magnesita: 3º(8%); Grafita: 3º (7,12%); Vermiculita: 4º (4,85%); Caulim: 5º (5,48%); Estanho: 5º (4,73%); e Rochas Ornamentais:6º (5,6%).

Estes são itens VITAIS para as sociedades em geral e TODOS, estarão cada vez mais raros com o pico da crise prevista para dentro de cerca de 3 décadas.

Portanto, se o Brasil tiver um mínimo de juízo terá de montar um sistema de defesa com poder dissuasório tal que qualquer país prefira um bom acordo conosco do que um enfrentamento militar.

MAS,  PORQUE SUBMARINOS?

Em primeiro lugar é indispensável conhecer o fato de que cerca de 80% do comercio internacional do Brasil é feito pelo mar, o que significa que qualquer bloqueio naval estrangularia, inexoravelmente, o país.

Ademais, aquilo que conhecemos como AMAZÔNIA AZUL é a área de oceano econômica exclusiva de exploração pelo Brasil que se prolonga por 200 milhas além da faixa de 12 a 20 milhas do mar territorial mais a projeção da PLATAFORMA CONTINENTAL.

“Há quem diga que o futuro da humanidade dependerá das riquezas do mar. Nesse sentido, torna-se inexorável o destino brasileiro de praticar sua mentalidade marítima para que o mar brasileiro seja protegido da degradação ambiental e de interesses alheios. Na tentativa de voltar os olhos do Brasil para o mar sob sua jurisdição, por ser fonte infindável de recursos, pelos seus incalculáveis bens naturais e pela sua biodiversidade, a Marinha do Brasil criou o termo "Amazônia Azul", para, em analogia com os recursos daquela vasta Brasil) região terrestre, representar sua equivalência com a área marítima.” (Marinha do Brasil).

A AMAZÔNIA AZUL, área marítima equivalente, aproximadamente, à Amazônia verde é prioridade absoluta para a defesa nacional, a cargo da MARINHA DO BRASIL.

Infelizmente, durante os anos de governos do PT, as forças armadas foram negligenciadas, provavelmente porque a ideologia superou interesses nacionais vitais e a nossa MARINHA DE GUERRA foi totalmente sucateada.

Mas, grande parte do problema foi gerado pela megalomania do comando da marinha que construiu uma base naval de primeiro mundo, aos mesmo tempo que um estaleiro também de primeiro mundo e, ainda ao mesmo tempo, encomendou os 5 cinco novos submarinos e gastou rios de dinheiro na tentativa inútil de recuperar o porta-aviões SÃO PAULO, adquirido na gestão FHC já em péssimas condições e que se tornou inviável em face de explosões de tubulações de vapor, com vítimas.

Não houve uma revisão, o navio veio “no estado” e desandou a dar problemas sucessivos aqui no Brasil.

O custo da reparação e recolocação do navio em condições operacionais seria proibitivo.

Não há mais o que discutir sobre a base naval, o estaleiro que já são uma realidade e, portanto, assunto encerrado. O porta-aviões SÃO PAULO, que digeriu uma fortuna em verbas para “recuperação” já está resumido a um casco “pelado”, do qual foi retirado tudo que pudesse ter valor e seguirá para desmanche.

Portanto assuntos encerrados.

As fragatas que dispomos estão no limite da vida útil, tanto as tipo NITERÓI como as inglesas posteriormente adquiridas em compra de oportunidade.

As corvetas se resumem a duas mais antigas e uma mais nova, BARROSO, construída no ARSENAL DE MARINHA (que poderia ser melhor e mais utilizado) e que, por estar em melhor estado, está sendo sobre utilizada, tipo “pau para toda obra”.

Em boas condições estão, principalmente, os navios porta helicópteros multi-propósito ATLÂNTICO e o BAHIA. Compras recentes de excelente oportunidade.

O que resta hoje é a tenacidade e alta qualificação dos nossos homens do mar operando um arremedo de esquadra, degradada pelo tempo e só relativamente operativa pelo capricho da Marinha na sua conservação.

Existe um certo consolo diante da possibilidade de construção de 4 corvetas, que apesar de modernas não seriam suficientes para recompor o poder bélico da marinha.

Não deverá haver dinheiro para novas fragatas e, assim sendo, iremos, mais uma vez comprar unidades usadas e retiradas de serviço ativo por uma potência de primeiro mundo, provavelmente a Grã Bretanha.

OS SUBMARINOS

Os submarinos, no nosso contexto de defesa, são peça fundamental pois são belonaves relativamente mais baratas e extraordinariamente eficientes e temidas.

Uma boa flotilha de submarinos, mesmo convencionais, desestimulam iniciativas agressivas.

A flotilha de submarinos quase deu a vitória aos alemães na segunda guerra mundial pois quase destruiu todas as linhas de abastecimento das ilhas GRÃ BRETANHA. Esta salvou-se pela interferência direta na guerra das suas maiores potências militares do mundo, os ESTADOS UNIDOS pelo lado OESTE e UNIÃO SOVIÉTICA pelo lado LESTE.

Os submarinos, hoje em dia, se dividem três categorias básicas: o submarino convencional normal, o submarino convencional dotado de sistema AIP ou equivalente e os submarinos atômicos, até hoje privativos das grandes potências.

O submarino RIACHUELO, um dos novos em construção, está prestes a ser lançado n´água é um submarino construído no Rio de Janeiro é um convencional normal, com tecnologia francesa. Uma inovação para nós que, até então, vínhamos acumulando a consagrada tecnologia alemã.

Os submarinos convencionais são bem menores, ágeis principalmente em águas mais rasas e bem armados com torpedos modernos e eficientes, considerando-se sua finalidade e teatro de operações. Como a AMAZÔNIA AZUL está localizada em águas mais rasas, estes tipos de submarino são extremamente adequados e possuem uma excelente relação custo-beneficio.

Estes submarinos preocupam muito a marinha norte americana (US NAVY) porque toda sua doutrina foi baseada no pressuposto de enfrentar inimigos grandes submarinos nucleares (RÚSSIA).

Negligenciaram o desenvolvimento de uma doutrina para o enfrentamento dos submarinos convencionais.

Por isso, mais recentemente seus sistemas de localização, perseguição e destruição de pequenos submarinos convencionais estão sendo continuamente revistos através de manobras conjuntas com marinhas estrangeiras que usam submarinos convencionais.

Uma tentativa de recuperar o tempo perdido. Mas como não utilizam mais submarinos convencionais, têm de recorrer à marinha amigas para disponibilizarem unidade para participarem em manobrar conjuntas.

São elas periodicamente convidadas a participarem desses exercícios com forças navais americanas, inclusive o Brasil já fez boa participação.

Existe uma antiga história, que não comprovei devidamente ainda, que um pequeno submarino convencional chinês emergiu no meio de um imenso grupo de batalha norte americano composto por um grande porta aviões e vários navios de escolta à sua volta. Apesar desse aparato, o submarino chinês não teria sido detectado.

Teria conseguido “furar” o cerco de proteção do porta aviões, feito pelas escoltas. A confirmar.

As unidades convencionais têm de se aproximar da superfície de tempos em tempos, para captar ar para respiração e funcionamento dos motores diesel.

Os submarinos convencionais com AIP tem um sistema próprio de produção independente de ar o que garante a permanência do submarino submerso por muito mais tempo.

Os submarinos atômicos das grandes potências, são imensos, dotados de variedade de recursos e armamentos de alcance estratégico, a maioria não disponíveis nos convencionais, o que significa que além dos torpedos usuais, têm o poder de disparar misseis diversos inclusive com carga nuclear além de outros armamentos táticos e estratégicos.

Podem ficar submersos por tempo indeterminado.

OS SUBMARINOS NUCLEARES

São os mais poderosos.

Normalmente imensos, capazes de carregar um volume muito maior que um convencional e dotados de um poder de destruição também muito maior.

Com capacidade de imersão por tempo indeterminado, limitado apenas pelo estoque de viveres e/ou exaustão da tripulação, são belonaves sob medida para navegar e operar em mar aberto com grandes profundidades onde se ocultam e navegam.

Esses monstros imensos, no entanto, têm restrições em operar em águas rasas porque, além de barulhentos, seu imenso tamanho não lhe dá agilidade para manobras rápidas em águas com pouca profundidade.

Nesse teatro podem ser vulneráveis aos ágeis submarinos convencionais. Isto porque foram concebido para enfrentar os imensos submarinos atômicos russos que seriam a espinha dorsal das megapotências em suposto conflito em que os submarinos estariam transitando em grandes profundidades oceânicas.

A diferença entre elas é que os russos nunca abriram mão dos pequenos e ágeis submarinos convencionais, como os da classe KILO e, portanto, mantiveram o “know-how ‘ nesse tipo de equipamento, ao mesmo tempo em conservaram o conhecimento das estratégicas aplicáveis.

O SUBMARINO NUCLEAR BRASILEIRO

”Não disporá da parafernália de armamentos de nível estratégico dos submarinos atômicos”

Ciente de que nosso submarino teria função primordialmente  defensiva, foi projetado para ter desenvoltura em águas rasas, apesar, de relativa eficiência em águas mais profundas.

Ele é, basicamente, um submarino convencional como os demais, todos derivados da classe SCORPÈNE francesa, mas alongado para ter condições de abrigar os equipamentos da unidade de propulsão nuclear.

Não disporá da parafernália de armamentos de nível estratégico dos submarinos atômicos das maiores potências pois a única coisa nuclear que disporá é a unidade de propulsão, o “motor”.

Mas, provavelmente, terá mais e ou melhores armamentos convencionais, comparados aos submarinos não nucleares, movidos a diesel/eletricidade.

Como terá tamanho mais compacto em relação ao nucleares conhecidos, reunirá vantagens importantes.

1) Agilidade em águas rasas e mais velocidade que a atual em qualquer profundidade.

2) Capacidade ilimitada de permanência em imersão, limitada, apenas à estafa da tripulação e disponibilidade de viveres.

3) Provavelmente maior disponibilidade de sensores e recursos eletrônicos comparados aos submarinos convencionais.

É um submarino que preocupa estrangeiros com interesse em manter livre acesso e passagem em caso de necessidade.

Sendo uma unidade ágil, operando bem em águas rasas além de melhor performance em águas profundas que os convencionais, silenciosa e com poder destrutivo suficiente para suas finalidades, já preocupa alguns estrategistas estrangeiros por um motivo simples:

Com um numero maior de unidades disponíveis, o Brasil terá capacidade de negar acesso a unidades estrangeiras indesejadas.

E isto, sob o prisma estratégico é muito grave para eles.

CONCLUSÃO

Com mais uma leva de submarinos convencionais, após esta que está no forno, e mais uns dois movido a energia atômica, chegaríamos ao ponto mínimo desejável de proteção de nossa costa, por algum tempo.

O autor  é analista e consultor jurídico e político. romulo@federici.com.br, rfederici@rfederici.com.br,

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