Petrônio, ex-futuro-quase candidato a presidente

Atualizado: 17 de Fev de 2020

Por LEONARDO MOTA NETO

(In Memoriam)


Colunista político, frequentei o Congresso Nacional para colher subsídios. Um dos que mais me impressionaram pela versatilidade do verbo e fidelidade na narrativa do fato foi um piauiense de Valença, Petrônio Portela.


Conheci-o Senador, mais tarde presidente do Senado. Nunca saí de seu gabinete de mãos vazias. Muitas vezes não era entrevista, nem conversa solta. Era um colóquio simbólico, entrecortado de metáforas. Ou pegava-se no ar ou deixava-se passar o assunto sem perceber que a fonte o havia exposto em silhuetas, que ao vulgo eram imperceptíveis.


Petrônio, magro, com pressão alta constante, fumante inveterado (adorava as cigarrilhas Du Maurier, que chamava de “Paulo César Acaju”, porque eram “escuras, metidas a besta e difíceis de acabar”), ao que tudo indicava confiava em conterrâneos. Abriu-me alguns segredos daquele momento duro da era Geisel.


Sonhava ser presidente da República. Seria o primeiro da retomada dos civis e da plenitude democrática. Achava na época que Geisel seria o último presidente militar.


O sonho presidencial era compartilhado por Geisel, que o adorava.


Num começo de tarde, daqueles dias turbulentos na Presidência do Senado (havia impedido com o seu prestígio o fechamento do Congresso pelos militares por causa de discursos inflamados contra o Exército por um senador, Leite Chaves, e um deputado, Marcelo Gatto). Petrônio logo chamou ao gabinete o Dr.Messias, do Serviço Médico, para medir a sua pressão arterial.


Os sintomas de pressão alterada não eram, porém, devido a nenhuma questão política ou militar. Mas devido a uma mulher. Uma linda mulher de sardas.


Detalhe: essa linda mulher era casada com o presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter. Sem o marido, que uma crise qualquer havia retido em Washington, Rosalyn Carter veio ao Brasil a convite de Geisel e cumpriu com a fulguração de sua beleza todo o protocolo de visita aos Três Poderes da República. No Senado, Petrônio desvaneceu-se em rapapés, chamando os fotógrafos para colher mil ângulos seus e da visitante.


Na tarde seguinte, eu havia marcado com ele às 14hs. Cheguei pontualmente, ele também. Assisti inicialmente ao ritual da medida da pressão arterial. Não prestando atenção ao conselho do médico, não se furtou em acender um Du Maurier na minha frente.


– “Seu Mota” – bateu na minha perna, sentados um frente ao outro em duas poltronas – “você nem sabe o que aconteceu ontem no jantar do Geisel e Dona Lucy no Alvorada!”


Havia sido o jantar em que o casal recepcionara a Primeira Dama dos EUA, com somente um pequeno grupo de ministros e embaixadores presentes.


Ele narrou com emoção, entrecortada com tentativas de baforadas, mas a cigarrilha não produzia fumaça, somente sensação.


– “O presidente Geisel e Dona Lucy ficaram sentados com Rosalyn Carter num jogo de pequenas poltronas. Do outro lado, nós, convidados, formamos rodas de conversas em pé.”


Mais uma tragada, seguida de pequena pausa para recobrar o fôlego (ele só tinha um pulmão. Perdeu o outro cedo, quando ainda era deputado estadual no Piauí).


E vai contando o clímax da história:


– “De repente, o presidente acena para mim, me chama para o seu grupo. Havia mais uma poltroninha perto de Geisel. Pediu-me para sentar. Aí se virou para Roselyn e lhe disse: Quando voltar aos Estados Unidos diga ao seu marido que este é o meu sucessor na Presidência da República. Seu nome é Petrônio Portela.”


Não foi presidente. Deu João Batista Figueiredo. Petrônio Portela foi ministro da Justiça dele e assinou em 1981 sua mais importante contribuição à história política do país, a Lei de Anistia, que permitiu a volta dos exilados e a reintegração dos cassados à vida civil. Morreu em 1982, do coração.


Publicado em fevereiro de 2016 na Revista Carta Polis

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