PIANTELLA – MAIS NOSTALGIA DO QUE SAUDADE

Por ALFREDO BESSOW


Até parece apenas mais uma ironia: no mesmo dia no qual completo 33 anos de “viver Brasília”, descubro pelo Bsb Capital do Orando Pontes que o Piantella fechou. Nunca foi o bar dos meus sonhos e lembro que nos primeiros dias na cidade-capital havia um convite reiterado no sentido de conhecer “o Piantella”, porque eu costumava sentir falta dos bares que havia conhecido em Porto Alegre, Blumenau e Floripa.


E aconteceu numa quarta à noite e de cara senti que ali estava um lugar artificial, um espaço de representação social e oportunidade de eventualmente aparecer em alguma foto de alguma coluna social dos muitos jornais impressos que circulavam em Brasília. Como a mesa estava reservada, houve algum tratamento ritualisticamente cerimonioso. Hoje, fechando os olhos depois de saber que o bar fechou, dou risada ao puxar excertos da memória, como se fosse um mosaico perdido no tempo, depositado no fundo do mar.


Depois de algumas carnes, certas histórias e três ou quatro garrafas de vinho, fomos embora e agra revejo Ulysses em uma mesa, sempre cercado de puxa-sacos. Devo ter voltado com o mesmo grupo e em outras companhias umas 10 vezes – confesso que nenhuma delas como minha primeira opção. A despeito das deferências que bem sei jamais foram por cortesia, hábito da casa ou educação, mas sim conveniência, afinal de contas entre nós sempre havia um parlamentar amigo que usava as “reuniões no Piantella” para encontrar-se com uma jornalista: ela ávida por informação, ele sedento de entregas.


Já li e concordo que a morte do Piantella foi decretada pela tecnologia, porque o seu auge foi antes dos celulares e suas câmeras, seus microfones. Havia um respeito litúrgico em relação aos limites da privacidade. Posso estar enganado, mas os jornalistas de então possuíam comprometimento ético – algo que ou você traz da formação familiar ou vai aprendendo ao longo da vida. Posso dizer sem manifestar preconceito que não gosto do jornalismo que desinforma, omite e deturpa a informação – característica maior de um tipo de jornalismo de esgoto que hoje é praticamente norma no que restou dos veículos tradicionais.


Olhando para as imagens que circulam em meus olhos, seria impossível nos dias de hoje ver Ulysses e Lula na mesma mesa sem que isso pipocasse nas redes sociais, além de tantos outros encontros que vi. O que dizer do estado de embriaguez que parlamentares – e aqui não vou definir sexo, porque a borracheira é algo universal – não conseguiam disfarçar quando saiam muitas vezes testavilhando no labirinto entre as mesas, esbarrando em cadeiras vazias ou ocupadas?


E imagina o meu susto quando entrei no banheiro e vi um Constituinte turbinando a noite diante de uma carreira que um assessor tentava a todo custo esconder. Ingênuo, perguntei se a pessoa estava passando mal e tive como resposta a oferta de compartilhar um pouco da branca. A branca, disse, que eu prefiro é cachaça e voltei estupefato e de olhos arregalados ao ponto de chamar a atenção do pessoal da mesa. Nada respondi... engoli de supetão o que havia na taça de vinho, respirei fundo e tratei de fazer de conta que nada havia acontecido.


A última vez que fui ao Piantella foi no final de 89, antes de viajar ao Sul. Ao longo do tempo, soube de várias mortes anunciadas do espaço. Houve tentativas de resgatá-lo, mas já ensinou o poeta que tulipas murchas não florescem mais e o que eu fui percebendo pelos relatos é que as pessoas queriam de volta um lugar que já não tinha mais como existir, um ambiente que já não tinha como sobreviver com as novas figuras e a memória de antigos personagens.


Na única vez que fui como cidadão normal eu confirmei todas as suspeitas: o tratamento era ordinário, o atendimento desleixado, a comida vinha no ponto desejado pelo maitre e não indicado pelo cliente, além da demora em atender os pedidos de bebidas e a pouca paciência em falar dos vinhos passíveis de harmonização a quem não tinha o respaldo de alguma excelência por perto...


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