POR QUE TANTA PREOCUPAÇÃO COM O PIB?

Por HAMILTON GONDIM

Coluna Mundo em Transformação

Inicio este trabalho com uma citação da ex-Presidente Dilma Roussef, em resposta a uma pergunta do que ela gostaria de ganhar de presente de natal:


“Quero um "PIBão grandão" (20 de dezembro de 2013)


Referia-se à performance da economia em 2013, já que as previsões de crescimento da economia brasileira para este ano, de 1% em relação ao ano anterior, eram nada animadoras.


De fato, em 1º de março de 2014, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anunciou o “PIBinho” de 2013: 0,9%, o mais baixo desde a crise econômica internacional deflagrada em setembro de 2008. Em 2013 e 2014: nem pibinho, nem pibão...


Por que toda essa preocupação com o Produto Interno Bruto (PIB)? Utiliza-se o PIB para representar a soma de todos os bens e serviços finais (todas as riquezas) produzidos numa determinada região (quer sejam países, estados ou municípios), durante um período determinado (mês, trimestre, ano, etc.); e pode ser calculado como:


PIB = Consumo privado + Investimento + Gastos Público + (Exportações -Importações)


Para se aumentar o PIB seria suficiente aumentar o consumo das famílias, ou o investimento, ou os gastos públicos, ou melhorar nossa balança de pagamentos. Porém, a economia não é assim tão trivial. O aumento persistente no consumo privado (per capita) pode provocar danos nos investimentos que inviabilizariam maior crescimento do PIB, no futuro, podendo levar a economia ao colapso. O mesmo pode ser dito dos gastos públicos.


A irresponsabilidade fiscal e as políticas demagógicas de distribuição de renda para aumentar o consumo das famílias podem levar a economia nacional a uma crise profunda, gerando uma situação de completo desarranjo econômico.


Pouco pode ser dito, com confiança, acerca da “riqueza” de um país, a partir do PIB (renda) per capita (seja lá como for medida), a não ser que se tenha a vã esperança de que, melhorando a renda média, pode-se pensar que estaria aumentando a renda de cada cidadão, melhorando, assim, o bem-estar social.


Porém, estatística média esconde muita coisa em termos da dispersão existente, isto é, pode camuflar ou distorcer uma realidade que, embora satisfatória numa ponta, pode ser catastrófica na outra ponta.


A título de se fazer uma caricatura, chamamos a atenção, de uma forma jocosa, para o fato de que, “se mantivermos a cabeça num congelador, a uma temperatura de – 5º C e os pés em um forno, a uma temperatura de 70º C, de sorte a manter uma temperatura média do corpo em 25 º C, não poderemos afirmar que esta seja uma situação agradável, pelo fato da média estar em um nível bem agradável. Analogamente, se tivermos dois indivíduos, um que esteja comendo um frango assado por dia e o outro, nenhum, pode-se dizer que o conjunto dos dois estaria consumindo ½ frango, per capita, não refletindo a precariedade da situação.


A modelagem estatística segue a seguinte lógica: O mundo real em que vivemos é demasiadamente complexo; é um mundo cheio de individualidades, às vezes estranhas. Dadas essas dificuldades práticas, o método científico (estatístico/econômico), ao simplificar o mundo real, permite que se trabalhem indicadores lógicos, com maior simplicidade, em um mundo hipotético, onde as particularidades dos fenômenos estudados são supostamente conhecidas, sem as complicações das incertezas e impropriedades do mundo real.


Das situações pré-supostas, obtêm-se resultados e indicadores hipotéticos que representam consequências lógicas nesse mundo simplificado das suposições. A validade relativa desses resultados hipotéticos como aproximação da realidade é algo que precisa ser discutido e testado. Tirar desse mundo complexo generalizações econômicas que sejam universalmente válidas seria tarefa praticamente impossível.


Políticas públicas expressas em planos, programas, ou projetos, relacionadas ao desenvolvimento de uma Região (País) declaram pretender não apenas o crescimento econômico da Região e sua integração à economia nacional, mas, principalmente, a melhoria da qualidade de vida das populações residentes nessa região, hoje e no futuro. Assim dito, parece trivial a escolha feita por um tipo de desenvolvimento privilegiando o aspecto social da atual e das futuras gerações. O discurso flui, então, com um jargão econômico-social-ecológico do modismo, politicamente correto, independentemente das posições políticas de cada interlocutor, sem um aprofundamento maior sobre as reais consequências dessas políticas.


A esperança generalizada e declarada das políticas públicas de crescimento para os países ou regiões “em desenvolvimento” é que, mesmo existindo um excedente de seres humanos “jogados” em atividades marginais e mantidos em estado degradante de miséria absoluta, a dinâmica do setor moderno, acompanhada por uma política de controle da natalidade, seriam suficientes para promover crescimento sustentado a uma velocidade maior do que a nova taxa de crescimento da população. Assim, o setor moderno da economia absorveria, gradativamente, os setores marginalizados, para eventualmente toda a economia alcançar o estágio de crescimento estacionário, com horizonte infinito, e beneficiando a toda a população, hoje e no futuro, para todo o sempre. Parece mais um final de conto de fadas, que quase toda a humanidade teima em continuar acreditando, apesar das constantes evidências de que isso é impossível, pelo menos para toda a humanidade.


Acreditava-se que o crescimento seria o remédio apropriado para erradicar a pobreza do mundo inteiro. Muitos clichês foram desenvolvidos, todos defendiam: rápida industrialização, modernização das instituições nacionais, substituição de importações, urbanização, decolagem para o crescimento, crescimento auto-sustentado, etc. Muitas mudanças ocorreram justificando o aparente sucesso da política desenvolvimentista.


Nas décadas de 70 e 80 do século passado, as crises foram se acentuando, de sorte que a década de 80 foi considerada pela Organização das Nações Unidas como a “década perdida”. Ainda hoje permanece o discurso eufórico do crescimento econômico ilimitado, agora, tendo que enfrentar a realidade do colapso ecológico e social, acentuado pelas consequências da pandemia do Covid -19.


Os resultados do crescimento econômico obtido têm sido a degradação do meio ambiente e a criação e o aumento das desigualdades espaciais e interperssoais, em todo o mundo. Historicamente, não há indícios de que as injustiças no mundo tenham diminuído ou que estejam em processo de diminuição, pela utilização da política tradicional do crescimento econômico. Na prática, tem-se impactos ambientais negativos, enquanto que “os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres estão ficando cada vez mais pobres e mais numerosos”.


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