Redação do Dia - ou Uma História sobre Professores

Atualizado: Fev 17

Por ANDRE R. COSTA OLIVEIRA

To Sir, with Love (“Ao Mestre com Carinho") é um belíssimo filme britânico de 1967 estrelado por Sidney Poitier. James Clavell dirigiu e escreveu o roteiro, baseado na semi-autobiografia de E. R. Braithwaite.


O filme estabelece o gênero no qual um professor idealista é confrontado com uma classe de adolescentes problemáticos e socialmente desajustados, fora dos padrões ditos “convencionais”.


Poitier interpreta um professor negro em uma escola predominantemente de alunos brancos em Londres.


Além de tocar na questão racial, o enredo também se concentra nos habituais problemas da adolescência (em especial numa comunidade pobre) e na necessidade da identificação com a figura de um líder.


Eis uma belíssima homenagem aos professores e às professoras de todo o planeta. Mas a questão é ainda mais complexa.


Eu me recordo quando, ainda bem menino, escutava o meu pai se levantando cedo - em verdade, no final da madrugada - arrumando-se às pressas para lecionar em colégios esnobes de Belo Horizonte, para alunos presunçosos e insuportáveis.


Mas não tinha outro jeito: era isso ou o inaceitável inadimplemento das prestações do modestíssimo apartamento financiado pela Caixa Econômica, sem contar os boletos e faturas e carnês intermináveis, muito conhecidos de uma família oriunda do interior de Minas, com duas crianças ainda pequenas, e que mal andavam.


Muito raramente o via chegando em casa, porque eu dormia cedo. Além disso, eram nada menos do que três ônibus lotados, além de centenas de metros caminhadas adentrando a noite já escura pelas ruas e ladeiras de nosso bairro. E meu pai seguia resiliente.


Nada era mais sagrado para mim do que o seu material de aula, guardado metodicamente na estante lá do quarto. Sempre um ou dois livros didáticos, a pasta de couro marrom surrada, as anotações em blocos de rascunho (feitos com sobras de papel de impressora matricial, que eu não sei aonde ele conseguia), canetas e diversos lápis cuidadosamente apontados, como se de prontidão lá estivessem, ao menor aceno de alguém que desejasse o aprendizado.


O melhor dia do ano era quando eu recebia o meu material escolar, adquirido com o enorme sacrifico de uma família assalariada. O odor das páginas em branco dos cadernos (que a minha mãe encapava com a precisão cirúrgica que lhe era própria) e o inebriante aprendizado inserido naqueles livros didáticos sussurravam que dali poderia germinar, quem sabe, um adulto decente. Era o regozijo absoluto. Divididas então as tarefas: o meu pai provia e ainda ensinava a centenas de meninos e meninas; e eu tinha todo um ano letivo entre provas e “deveres de casa”, para não o decepcionar (e confesso, com tristeza, que falhei algumas vezes).


Existe uma mágica em tudo isso: com aquelas poucas ferramentas de trabalho aliadas à perseverança e a um cérebro permanentemente inquieto, questionador e abundante o meu pai estava transformando, diante dos meus próprios olhos, toda uma sociedade, a cada dia enfrentado de labuta extenuante. O meu pai exercitava com destreza a maior e a mais sublime vocação de todas: a de transmitir conhecimento, dignidade, cidadania e de, sobretudo, ensinar ao ser humano a pensar e a sobreviver ao meio. Ou seja: ensinar o ser humano a ser humano!


Todo e qualquer docente da face da terra será sempre um garantidor de que existe sim um futuro possível, com equidade e sustentabilidade.


Me impressiona a sistemática destruição de nossa infraestrutura acadêmica, a constante redução de financiamentos de pesquisa e desenvolvimento, as escolas e universidades sucateadas, o ensino básico efêmero, os docentes desmotivados, pouco qualificados e mal remunerados. Coisa de extermínio de cinema-catástrofe.


Nota-se que a educação no Brasil se consolida como “uma casa muito engraçada” que “não tinha teto, não tinha nada”, onde “ninguém podia entrar nela não porque na casa não tinha chão”, na qual “ninguém podia dormir na rede porque na casa não tinha parede” e nem mesmo “fazer pipi porque penico não tinha ali”...


Por outro lado, também me estarrece a infinita criatividade e a perseverança dos nossos professores, em todos os níveis.


É a história da professora que não dorme durante as noites preparando a sopa que a mesma leva na cabeça, em uma panela grande e pesada, para que os seus alunos na zona rural de algum lugar esquecido no imenso Vale do Jequitinhonha não deixem de assistir às aulas, já que, muitas vezes, é aonde fazem a única refeição do dia.


Ou a história do professor que utiliza ossos de rabada de bovinos para ensinar a matemática mais básica no sertão da Paraíba.


De repente a história do coordenador de universidade pública de uma grande capital brasileira que assume, às suas próprias expensas, os equipamentos necessários ao prosseguimento de pesquisas, para que não sejam relegadas à lata de lixo.


São exemplos intermináveis. Eu carregarei eternamente a culpa e o arrependimento de cada resposta petulante, de cada grosseria minha em sala de aula, de cada uma de minhas interrupções jocosas, dos meus gestos e insinuações pernósticas e até mesmo do meu sono adolescente e desrespeitoso, enquanto alguém, altruísta, tentava enfiar conhecimento em minha cabeça vazia, “maconhada”, desviada ao onanismo incessante e aos peitos e às bundas das meninas da sala de aula.


Cumpre agora uma observação interessante: recebi em minha residência de noite, há alguns dias, a visita de um grande irmão de armas. Logro em dizer que o meu amigo Felipe leciona a melhor e a mais estimulante Filosofia do Direito na Universidade de Brasília - UnB.


Vinhos e cervejas degustadas, música de qualidade, “Kants”, “Platões”, “Agostinhos” e “Spinozas” exorcizados em diálogos profundos exauriram o nobre convidado, que, ao ir embora, deixou sobre a minha mesa o material de aula que trouxera consigo. Material, em essência, idêntico ao que o meu pai diariamente carregava, guardadas as devidas proporções de tecnologia, peso e praticidade.


Entretanto, há algo absolutamente idêntico: tanto o meu pai quanto o professor Felipe são idealistas, cavaleiros românticos que não se afastaram jamais da ideia de que um Brasil melhor se faz com o mais límpido conhecimento. O meu pai não mais está em sala de aula, uma vez que a finitude de seu corpo não lhe prorrogou tal oportunidade; felizmente o professor Felipe continua ativo, e espero que assim permaneça por muitas décadas, brindando-nos com iluminuras.


É fantástico e ao mesmo tempo irrelevante que atualmente existam incontáveis plataformas de trabalho avançadas e que proporcionam o acúmulo, o gerenciamento, o monitoramento e a racionalização de todo um arcabouço infinito de informações e dados voltadas ao processo educativo (embora ainda não acessíveis a todos).


Também é fantástico e ao mesmo tempo irrelevante o modelo de gerenciamento das modernas instituições de ensino, ainda que estabelecendo interface outrora impensável entre docentes e discentes.


No final das contas, tudo se resume aos poucos livros, a pasta de couro marrom surrada, as anotações em blocos de rascunho, as canetas e aos lápis apontados. E, acima de tudo, a uma abnegação extrema, inexplicável, inominável e que não se verga aos impropérios enfrentados do cotidiano de um professor em nossa pátria.

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