SETE MIL VIDAS IRRELEVANTES E ALGUNS HAMBÚRGUERES VENDIDOS

Atualizado: Abr 7

Por ANDRE R. COSTA OLIVEIRA

“Fazer o bem faz parte da nossa gestão. Gostamos e queremos que mais empresas façam ações em benefício da sociedade. O ciclo é virtuoso, quanto mais bem fazemos, mais pessoas felizes, mais crescemos” (Junior Durski, empresário brasileiro)

Eu gosto do hambúrguer do Restaurante Madero, muito embora – e modéstia à parte – o meu blend atualmente também seja muito saboroso. As minhas duas filhas adolescentes amam o Madero. Meus amigos e colegas de trabalho idem. O modelo de negócio criado pelo Madero é inovador e criativo. Mas aí começa o problema. Empresários de sucesso são figuras públicas que geram oportunidades de trabalho, movimentam a economia e recolhem os seus impostos (ao menos em tese). Via de consequência, se tornam formadores de opinião importantes, invejados e ao mesmo tempo admirados; transfiguram-se em exemplos do que deve ser vivido como conduta ética, profissional e social (ou não). Na última segunda feira (23/03/2019) o senhor Junior Durski, proprietário majoritário do Restaurante Madero (mais de 100 casas abertas pelo País) publicou um vídeo em suas redes sociais no qual condena as medidas de cautela adotadas pelo Poder Público brasileiro no intuito de conter – ou de minimizar – as consequências da pandemia do Novo Coronavírus (COVID-19).

Em seu pronunciamento, o empresário afirma, in litteris, que “o Brasil não pode parar dessa maneira. O Brasil não aguenta. Tem que ter trabalho, as pessoas, têm que ter trabalho, as pessoas têm que produzir, têm que trabalhar. O Brasil não tem essa condição de ficar parado assim. As consequências que teremos economicamente no futuro vão ser muito maiores do que as pessoas que vão morrer agora com o coronavírus”. Assevera ainda que “não podemos (parar) por conta de 5 ou 7 mil pessoas que vão morrer, eu sei que é muito grave, sei que isso é um problema, mas muito mais grave é o que já acontece no Brasil”. Sobre esse entranho pronunciamento, continuaremos a falar daqui a alguns poucos parágrafos. O conceito da palavra “ironia” (proveniente do grego arcaico) configura-se em uma maneira de expressão com base em afirmações opostas àquilo que se almeja expressar, zombando, censurando, criticando, atacando ou denunciando algo ou alguém. Trata-se de um modus operandi amplamente utilizado e observável nos diálogos platônicos, segundo os quais a técnica de Sócrates, em diversas passagens, se baseava na simulação de certa ignorância sobre um determinado tema, com a formulação de questionamentos e a posterior aceitação das respostas proferidas pelos interlocutores, fazendo-os entrar em divergência (contradição) entre si próprios, desnudando os raciocínios obsoletos (ironia socrática, conforme a expressão cunhada por Aristóteles). Já no período moderno, a ironia passou a descrever a utilização de gestos, palavras ou até mesmo atitudes em total oposição aos seus verdadeiros significados, alegando-se exatamente o contrário do que se diz ou ainda do que acredita-se. Jonathan Swift (30/11/1667 – 19/10/1745) foi um brilhante filósofo, escritor e poeta Irlandês, aclamado pela Enciclopédia Britânica como o maior satirista de prosas da língua inglesa e eternizado por obras magistrais tais como A Tale of a Tub, An Argument Against Abolishing Christianity, Gulliver's Travels (“As Viagens de Gulliver”, que a gente sempre tem que ler na escola primária) e, a que mais nos interessa no momento, A Modest Proposal (título que pode ser traduzido como “Uma Modesta Proposta”). Swift reinou absoluto no império da ironia. O humor e a sagacidade de Swift contêm elementos de altíssima sofisticação e elegância, sendo ao menos tempo corrosivo e astuto, satirizando as classes sociais pernósticas e elitizadas de seu tempo. Em Modest Proposal, Swift fomenta um personagem arrogante, financeiramente abonado, indiferente à situação de sua própria família e com a suposta intenção de, no que seria uma tese acadêmica/científica, erradicar a situação de extrema pobreza e demais mazelas sociais vivenciadas na Irlanda de seu tempo. À medida em que a narrativa avança, fica evidente que Swift, ironicamente, brinca com a lógica humana de maneira pervertida – e não menos abundante em ironia. Dissertando sobre argumentos sem sentido e ainda elaborando cálculos desmesurados e estapafúrdios, o soberbo personagem chega a afirmar que as crianças oriundas das famílias pobres são um verdadeiro fardo aos seus genitores, recomendando que bebês sejam nutridos em regime de engorda e, posteriormente, dados aos mais ricos como alimento, sugerindo, inclusive, acompanhamentos gastronômicos suculentos para aquelas “carnes tenras”. Diz ainda que maiores de 12 anos já não interessam aos poderosos, por despossuírem valor comercial significativo. Há ainda em Modest Proposal a crítica devastadora aos homens irlandeses, dado que, em uma das passagens de seu texto, o fictício narrador sustenta a teoria subsidiária de que a conversão das crianças pobres em produto alimentício tenderia a reduzir a agressão sistemática às mulheres, que seriam então melhor tratadas por seus companheiros. Tamanho surrealismo e aparente agressividade são propositais e inquietantes, desencobrindo a exploração do trabalho até o limite das forças dos empregados pobres, da ausência de terras, de moradia e de segurança, das doenças e da fome. Retomando agora a questão do Restaurante Madero: Acredito que um brasileiro comum, decente e minimamente inteligente é adepto à tese de que o País precisa mesmo produzir riquezas e que não pode simplesmente “estacionar” de forma súbita, assim como já se expressou o senhor Junior Durski e algumas outras “figuras”. Empresários, comerciantes, autônomos, servidores públicos, profissionais liberais, empregados da iniciativa privada, empreendedores do turismo, atletas, artistas, todos nós – direta ou indiretamente – estamos, de fato, perdendo. Disso, todo mundo sabe e, em maior ou menor escala, já sente em seu próprio bolso. Todavia, a afirmação de que “não podemos (parar) por conta de 5 ou 7 mil pessoas que vão morrer” é absurdamente medíocre, desrespeitosa e ofensiva, uma vez que qualquer vida humana tem valor infinitamente superior aos hambúrgueres que permanecem estocados em freezers caros, de última geração. O senhor Júnior Durski não fez ironia, tal qual o genial Swift; ele falou com a seriedade míope de alguém que desconhece algo básico: o conceito primário de que o homo sapiens domina a cadeia alimentar porque transmite não apenas a doença, mas, principalmente, o inesgotável Conhecimento, e também porque é detentor de inigualável adaptação ao meio ambiente. Será que o senhor Junior Durski cogitou a hipótese de que algumas das vítimas que padecerão terrivelmente perante o COVID-19, sufocadas, infeccionadas, poderão ser de repente os seus próprios familiares, ou crianças e adolescentes inocentes tais como a Eva, o Joaquim e o Benício, filhotes de seu sócio/amigo Luciano Huck, carismático e brilhante comunicador que almeja a Presidência da República em 2022? Certamente que não. Mesmo diante da aviltante indiferença do senhor Junior Durski com relação ao próximo (uma vez que, ao que nos parece, ele não vê pessoas e sim meros consumidores), é cediço que a cada vida humana que se perde (independentemente do motivo) há uma cadeia de mórbida e insidiosa reação que se inicia de imediato. É uma família inteira destroçada emocionalmente, uma mão-de-obra não mais produtiva, um vizinho que não mais verá o seu amigo, um arrimo de família que descenderá o nível econômico de seus dependentes, uma pecúnia a menos circulando no mercado, uma dívida não paga. O mencionado empresário deveria também saber que a gestão da crise ocasionada pela pandemia do COVID-19 tende a definir toda uma visão geopolítica acerca do País perante o restante do planeta, o que deverá impactar em capital e em investimentos estrangeiros a médio prazo. Além disso, não apenas o Brasil, mas o mundo inteiro vem sendo afetado. Os países se monitoram e observam-se mutuamente. E a nação que não tomar as providências imperiosas à contenção de uma pandemia estará fadada irremediavelmente ao escárnio e ao descrédito mundial. Veja-se o caso do estado de São Paulo, no qual o atual Governador João Dória, com exímio senso de coragem e de responsabilidade, adotou medidas drásticas a fim de controlar a expansão da pandemia do COVID-19, mesmo diante do fato de que a Capital Paulista é detentora de um PIB anual que supera o de muitos países inteiros da Europa, Ásia, África e Américas Central e do Sul. Já em âmbito do desenvolvimento social – que não caminha necessariamente aliado ao desenvolvimento econômico – a sugestão é a de que se observe a forma com a qual uma sociedade (seja ela um pequeno núcleo familiar, um condomínio, uma rua, um bairro, um município, um estado ou um país inteiro) lida com aqueles que são mais fracos, respectivamente: as crianças, os enfermos e os idosos (como são cuidados, como são acalentados). E, nesse quesito, o senhor Junior Durski representa momentaneamente o que existe de mais retrógrado em direitos humanos e cidadania, demonstrando profunda ignorância quanto às recomendações de toda a comunidade científica – na mais tresloucada contramão da história e do conhecimento, alardeando a existência de utópica paranoia e de inexistente histeria. O mundo, simplesmente, não pretende ser extinto. Pelo menos não ainda. Simples assim. Urge ainda consignar que muitos dos supostos 7.000 mortos “profetizados” pelo senhor Junior Durski serão profissionais da área da saúde, que, nesse exato instante, revezam-se em turnos exaustivos com enorme abnegação em um esforço único, lutando contra feroz e implacável inimigo. Tais profissionais merecem sim um pedido de desculpas – muito mais do que um cheeseburger de cortesia. O proprietário do Madero me recorda, nesse episódio todo, a irreverente face do bizarro Alfred E. Neuman, personagem símbolo da revista satírica norte-americana Mad, figura sardônica e de grandes orelhas de abano, e cujo slogan era a frase "What, me worry?" ("O quê? Eu, me preocupar?"). Talvez o senhor Junior Durski seja o nosso Alfred E. Neuman. Aliás, fisicamente até que se parecem um pouco. “Eu, me preocupar?”.


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