SOBRE A IMENSA ALEGRIA EM RECEBER VISITAS

Atualizado: 13 de Abr de 2020

Por ANDRE R. COSTA OLIVEIRA


(Aos meus amigos Felipe Magalhães, Marcelo Neves, Fabiano Hartmann e Miroslav Milovic)



“E vieram os dois anjos a Sodoma à tarde, e estava Ló assentado à porta de Sodoma; e, vendo-os Ló, levantou-se ao seu encontro e inclinou-se com o rosto à terra. 2 E disse: Eis agora, meus senhores, entrai, peço-vos, em casa de vosso servo, e passai nela a noite, e lavai os vossos pés; e de madrugada vos levantareis e ireis vosso caminho. E eles disseram: Não! Antes, na rua passaremos a noite. 3 E porfiou com eles muito, e vieram com ele e entraram em sua casa; e fez-lhes banquete e cozeu bolos sem levedura, e comeram. 4 E, antes que se deitassem, cercaram a casa os varões daquela cidade, os varões de Sodoma, desde o moço até ao velho; todo o povo de todos os bairros. 5 E chamaram Ló e disseram-lhe: Onde estão os varões que a ti vieram nesta noite? Traze-os fora a nós, para que os conheçamos. 6 Então, saiu Ló a eles à porta, e fechou a porta atrás de si, 7 e disse: Meus irmãos, rogo-vos que não façais mal. 8 Eis aqui, duas filhas tenho, que ainda não conheceram varão; fora vo-las trarei, e fareis delas como bom for nos vossos olhos; somente nada façais a estes varões, porque por isso vieram à sombra do meu telhado.”

(Genesis, Capítulo 9)


Acredito que o privilégio de receber amigos queridos em casa é sempre maior do que o privilégio de ser recebido. A hospitalidade encontra-se no amago das relações humanas, e o acolhimento ao seu visitante tende a potencializar e a alimentar sobremaneira tais relações humanas, corolários de paz e harmonia. Quero me ater à hospitalidade doméstica, desprezando, ao menos nessa breve crônica, os conceitos de hospitalidade pública e de hospitalidade comercial, sobre os quais talvez eu escreva um dia.


Desde a literatura magistral de Homero (928 a.C – 898 a.C), sobretudo na Ilíada, canto XVIII, a ideia do microcosmo familiar é de extrema relevância à estruturação da chamada “sociedade homérica”. A totalidade dos aspectos da vida de um cidadão se constitui de um profundo arcabouço de direitos e deveres daqueles que habitavam a pólis, um verdadeiro código de comportamento de longeva tradição, com a nítida premissa de que as funções e a hierarquia deveriam permear o dia a dia da população, tais como a simbiose entre o mestre e o seu servo, o oficial e o soldado, o proprietário e o seu escravo e, não menos importante, o anfitrião e os convidados.


Em outras palavras: a essencialidade do princípio da hospitalidade na sociedade grega – levando-se em conta a inexistência de uma legislação subordinada a dogmas religiosos, que tende a reforçar a teoria de uma sociedade embasada em boas maneiras e em regras de trato social – torna eviscerada e cabalmente plausível a detecção de sua gigantesca contribuição à formulação de conceitos filosóficos elementares, tais como a ética e a moral, observáveis no legado de Sócrates, Platão e Aristóteles. Hospitalidade, portanto, fomentava desenvolvimento cultural, respeito ao próximo, amizade e justiça.


Já na Odisseia, Homero enfatiza com extrema veemência a absoluta antítese do que se configuraria a boa hospitalidade ao mencionar os gigantescos ciclopes, violentos e insolentes foras-da-lei, que invadiam terras cultivadas e, em atos de completa barbárie, devoravam aqueles incautos que os visitavam, blasfemando até mesmo contra o grande Zeus.


A hospitalidade (ou a sua ausência), ao longo de toda a narrativa poética deliciosamente vislumbrada em Odisseia, afeta de maneira nítida e direta as atitudes de Ulisses, a começar pelo incidente em sua própria residência: tendo sido ofertada, segundo rezava a tradição vigente, como hospedagem a seus pares na ausência do soberano, foi rapidamente ocupada por vulgares pretendentes de Penélope, sua esposa, e sistematicamente saqueada.


Porém, é como náufrago e em terras longínquas que a verdadeira hospitalidade é revelada a Ulisses: ao chegar no reino dos Feácios, o rei lhe confere abrigo, alimento e retorno seguro ao lar (canto V) Já na ilha de Éolo, Ulisses é auxiliado por Circe (deusa da lua nova, do amor físico, dos encantamentos, das feitiçarias, das maldições e das vinganças – canto X). Resta evidente que, ao conhecer a real noção de hospitalidade, Ulisses podia sem maiores obstáculos avaliar o grau de civilidade existente.


Decorridos “céleres” 3000 anos desde a mais ancestral mitologia grega, conclui-se que todos nós também podemos entender a hospitalidade como algo que transcende a mera interação entre pessoas. Trata-se, provavelmente, de uma das maiores - e mais importantes - formas de interação e de integração, que nos agrega e humaniza. Há registros, inclusive, de comunidades caçadoras/coletoras que empreendiam curiosos rituais de recepção a membros oriundos de outros grupos.


Portanto, arrume bem a sua casa, seja ela grande ou pequena; coloque uma música que reflita o gigantesco regozijo de estar entre amigos; presenteie; escolha e sirva a sua melhor bebida, seja ela um pomposo espumante, um singelo copo d’água, ou ainda um café coado com esmero; prepare o alimento, observe os aromas e temperos, ainda que se restrinja a apenas um delicioso ovo caipira na manteiga de garrafa; ceda a sua cama de maior conforto.


Note, finalmente, que o ambiente e o cardápio se revestem do ingrediente singular e que não se pode adquirir no supermercado ou na floricultura de seu bairro: o perfeito, sublime amor empreendido e empenhado no fomento e na execução do próprio evento, que reflete a alegria do festejo e da companhia de pessoas que nos são queridas.


Aliás, é a companhia de seus convidados que congrega a acalenta, que permite o intercâmbio maciço de ideias e de pensamentos, que desperta o esquecimento dos problemas, a germinação das loucas e mais divertidas filosofias. “Companhia”, não por acaso, se deriva do latim arcaico, sendo “com”+“panis”, ou seja, compartilhar o pão, não apenas para que nos alimentemos, mas, principalmente, para que confraternizemos (aliás, “confraternitas”, “com+fraterno”, conviver fraternalmente”).


Um ancoradouro seguro em meio às tormentas do mundo, que transforma inimigos em amigos, amigos em amigos ainda melhores, não-familiares em familiares, estranhos em conhecidos. Receber pessoas nos remete à destituição de nosso egocentrismo para o convívio devotado junto ao próximo. É manter acesa a vela que, em várias culturas (tanto ocidentais quanto orientais), cria o indescritível “espírito do ambiente”, e reúne os “espíritos dos que estão ali presentes”.


Certamente conhecemos casos de violação à regra da melhor hospitalidade por parte de convidados inconvenientes, indiscretos ou trapalhões. Todos, na qualidade de anfitriões, já passamos por situações análogas, de visitantes que confundem gentileza com fraqueza, temperança com mediocridade e educação com flerte (pausa para uma curiosidade acadêmica: a palavra “Anfitrião” deriva da mitologia grega: marido de Alcmena, o soldado Anfitrião foi enviado à guerra de Tebas, momento em que Zeus teria tomado a sua forma a fim de deitar-se com a bela mulher (cópula da qual nasceu o semideus Héracles), enquanto Hermes incorporou a forma de “Sósia”, escravo da família, para que montasse guarda na entrada dos aposentos domésticos. Após a revelação de toda a verdade – e estando Anfitrião satisfeito por ser esposo de uma das “escolhidas” de Zeus (eu, heim...) – o seu nome passa a significar “aquele que recebe em casa”.


Voltando aos hospedeiros problemáticos: Páris, filho de Príamo, sábio Rei de Tróia, permanecendo hospedado no palácio de Agamêmnon, soberano de Esparta, opta por raptar Helena, esposa de Menelau, irmão de seu anfitrião, antecipando a guerra sangrenta que dizima o reino troiano; brasileiros, em 1950, humilham jogadores uruguaios dias antes da final de uma copa do mundo, já antecipando a vitória com chacotas e manchetes jornalísticas, que terminam com o Uruguai vencendo a partida por placar de 2 x 1, silenciando mais de 200.000 pessoas no Maracanã, incrédulas e desoladas, no que foi, talvez, a maior e a mais dolorosa catarse brasileira. Não se humilha jamais um visitante.


Ainda sobre os “maus visitantes”, imperativa a transcrição de poeminha de Drummond intitulado “Sociedade”, que, com a elegância de sempre, “sussurra” aos leitores a ingratidão, a hipocrisia e o abuso:


“O homem disse para o amigo:

- Breve irei a tua casa

e levarei minha mulher.

O amigo enfeitou a casa

e quando o homem chegou com a mulher,

soltou uma dúzia de foguetes.

O homem comeu e bebeu.

A mulher bebeu e cantou.

Os dois dançaram.

O amigo estava muito satisfeito.

Quando foi a hora de sair,

o amigo disse para o homem:

- Breve irei a tua casa.

E apertou a mão dos dois.

No caminho o homem resmunga:

- Ora essa, era o que faltava.

E a mulher ajunta: - Que idiota.

- A casa é um ninho de pulgas.

- Reparaste o bife queimado ?

O piano ruim e a comida pouca.

E todas as quintas-feiras

eles voltavam à casa do amigo

que ainda não pôde retribuir a visita.”


O segredo é que sejamos altruístas e resilientes, e que saibamos extrair o máximo desfrute em receber e acolher o outro. Como nos ensina a pensadora portuguesa Isabel Baptista, a hospitalidade é vista como “um dos traços fundamentais da subjetividade humana na medida em que representa a disponibilidade da consciência para acolher a realidade fora de si.” Hospitalidade é vacina contra a intolerância, a arrogância, o preconceito, o racismo e a truculência.


Jamais deixemos de receber o viajante. Respeitemos o peregrino. Protejamos e afaguemos o visitante. Aprendamos com o hóspede. Escutemos as suas histórias, memórias e desejos. Ofereçamos o que puder para que ele se sinta confortável. Ultrapassemos o distanciamento da etiqueta formal para a intimidade sincera do calor humano. Isso nos fará felizes e realizados (afinal, segundo um dia me disseram lá na roça, até mesmo Jesus Cristo se disfarça de mendigo para avaliar a caridade e a bondade das pessoas...).


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Conheça o nosso colunista Andre R. Costa Oliveira e leia outros artigos de sua autoria:

https://www.cartapolis.com/sapere-aude

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