Sobre “ruínas” e “Raizes”

Atualizado: Fev 17

Por ANDRE R. COSTA OLIVEIRA

(colaboração de Virginio Santos)

”Estremeço. Como não ter Deus? Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo.”

(João Guimarães Rosa)


A Igreja de Pedra em São João do Pacuí/MG (vila fundada pelo bandeirante Manoel da Borba Gato) repousa às margens do Rio das Velhas, afluente do São Francisco. 


Remonta ao século XVII, restando inacabada por fatores diversos, tais como sucessivos ataques de índios, epidemias de malária, súbitas enchentes entre outros reveses, o que lhe outorgou a reputação de local amaldiçoado. Ainda assim foram celebrados cultos religiosos no local durante vários anos, inclusive sepultamentos no interior de sua nave e em seus arredores. 


Há rumores de que em seu subsolo se encontram, entre outros, os restos mortais do bandeirante Fernão Dias Paes Leme, o “caçador de esmeraldas”, um dos mais importantes desbravadores do sertão brasileiro.

Há ainda uma enorme peculiaridade: na parede de sustentação do fundo da igreja, local em que se localizaria o altar principal, existe uma imensa amendoeira, germinada e crescida ao longo das entranhas de toda a edificação, com as suas enormes raízes expostas, tudo isso provavelmente em decorrência da ação de pássaros e morcegos.


Vejo a pequenina Igreja de Pedra como uma das maiores e mais interessantes metáforas da crença e da religião a que representa. Não é nem um pouco decadente; não é apenas mais uma das várias ruínas de edifícios outrora erigidos em nome da fé e da contemplação pelo mundo afora; não se trata apenas de madeira e pedra.

A Igreja em São João do Pacuí vem sofrendo há séculos com total e absoluto descaso e com o lamentável, quase insidioso desinteresse histórico (demérito genuinamente brasileiro), que a faz em grande parte esquecida e ainda “decorada” com pichações e desenhos vulgares de todos os tipos.


Só que a modesta construção, a despeito dos piores prognósticos, ainda continua lá, testemunhando o decorrer dos tempos, sobretudo as idiossincrasias de uma Instituição que se sustenta há dois mil anos e que, recentemente, vem se reinventando e se adaptando aos novos tempos.


Tempos nos quais o celibato já não se apresenta como um tabu inquestionável; a pedofilia e o abuso sexual no clero não mais são tolerados; a soberba e a empáfia de clérigos vêm sendo substituídas pela tolerância e o diálogo; movimentos sociais ocupam cadeiras em círculos de debates; a castidade não mais projeta homens e mulheres às perversas profundezas do inferno; e os erros do passado - cruzadas, santa inquisição, financiamento de conflitos armados, espoliação de patrimônio público e privado, condescendência com fenômenos políticos extremistas, totalitários e autoritários, “perversões financeiras” fomentadas no Banco do Vaticano - estão sendo encarados com sinceridade, dignidade, altivez e reconhecimento expresso de culpa correicional.


A Igreja de agora não é um Sacripanta de Ariosto, como em tantas vezes caricaturada; a Igreja de agora é um atleta que se fortalece para entrar de volta em campo, defendendo posições com fôlego e proatividade no cenário internacional, goleando e encantando a todos.


A Igreja Católica Apostólica Romana atualmente conta com um líder carismático, lúcido e culturalmente preparado, um senhor latino-americano amplamente atento à virada do primeiro quinto do presente século. E que tem a plena consciência de que a defesa da Igreja e da figura de Deus-Pai por meios que não sejam racionais e agregadores leva irremediavelmente à descrença e ao derramamento de sangue inocente.


Criticado por setores mais conservadores ante as posturas informais que manifesta frequentemente, é ao mesmo tempo enaltecido pela promoção da franca reaproximação de sua Igreja com “ovelhas desgarradas”, fiéis desmotivados, solitários, espiritualmente órfãos e ainda com milhões de peregrinos espalhados pelo mundo inteiro, e que necessitam de um guia, de um astrolábio, de um GPS (para sermos mais contemporâneos).


Cumpre destacar que, à luz da melhor doutrina cristã, a escolha de um Papa não se dá pelas opiniões e ideologias de um grupo seletíssimo de cardeais trancafiados na Capela Sistina: em verdade, articulações e votos proferidos em sigilo não emanam das cabeças alvas (ou calvas) dos membros do Conclave, mas sim do magnífico - e magnânimo - Divino Espírito Santo, ele próprio, que profetiza e que se exprime pelas bocas e canetas de seus clérigos o nome daquele que será digno de usar o Anel do Pescador - sendo a ordenação papal, em minha modestíssima opinião, irrenunciável por sua própria natureza (muito embora existam precedentes canônicos antigos, e que foram utilizados como referência aos intensos acontecimentos de 2013, quando houve a última renúncia papal - abalando alicerces, mas ainda preservando imaculada a Santa Igreja).


A Igreja Católica Apostólica Romana será sempre, por razões de clara obviedade, alvo fácil e visível, atacada por algozes que negligenciam a ideia de que o homem é o fruto de seu tempo; aliás, os homens passam, mas a fé que os acolhe, que os une e que conforta os enfermos, os desesperados, os desalentados, essa sim permanecerá incólume. Não a fé que acomoda as classes, mas a fé que as motiva a seguir em frente. Tal qual a igrejinha de São João do Pacuí, maltratada e olvidada, quase que abduzida da mais ancestral literatura sertaneja, e que mesmo assim continua ainda edificada no Rio das Velhas, com raízes de amendoeira expostas como vasos sanguíneos que a nutrem, resistentes aos viventes e aos não viventes.

Cada um de nós é um pedaço daquelas raizes enigmáticas, e ao mesmo tempo uma pequena pedra que, devidamente empilhada a milhares de outras, constitui-se em estrutura sólida e intransponível.

       

Violência, depredação, enchentes, epidemias e fantasmas não conseguirão fazer com que a pequena igreja caia e desapareça; nem essa miúda construção em Minas Gerais, e nem muito menos aquela Edificação gigantesca, arrebatadora, com os alicerces rígidos como rochas milenares e pedaços da mais escura e densa aroeira, que está no coração do penitente, daquele que acredita no amor como a essência de um Deus vivo, que se movimenta, que não se queda inerte diante da velocidade e da voracidade das informações e da enorme tecnologia produzida em progressão geométrica; um Deus reluzente, e que nos deseja a plenitude e a felicidade.


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