SOMOS TÃO JOVENS

Atualizado: Abr 13

Por ANDRE R. COSTA OLIVEIRA



1986/1987: domingo à tarde era dia de matinée na boate Zoom de Brasilia, inaugurada em 1986 onde antes havia o Cine Espacial, no Gilberto Salomão, fruto de parceria entre o empresário que dá nome ao centro comercial e o então “rei” da noite carioca, Chico Recarey.

Nós adolescentes aguardávamos durante toda a semana por esse momento.

Cada um ia como podia. Ônibus, carona com os pais de alguns dos amigos e amigas mais benevolentes (até no porta-malas da Caravan servia), ou ainda “embarcando” com colegas que já dirigiam - escondidos de seus genitores. Não era incomum descermos a pé da L2 Sul e atravessarmos a ponte caminhando, para economizar dinheiro do refrigerante e depois fazendo o mesmíssimo trajeto no caminho de volta - mas ainda assim valia o “sacrifício”...

As portas se abriam pontualmente às 15:30. Aguardávamos ansiosos o início da festa ao som de Anita Baker, Marvin Gaye entre outros, no que seria atualmente o que chamamos de “lounge music”.

E às 16:00 horas pontualmente o nosso “delírio” começava, sempre com a mesma música, a apoteótica “In the Stone” (Earth, Wind and Fire). E daí eram os grandes sucessos internacionais da época, Simply Red, A-ha, Prretenders, Dire Straits, Billy Idol, Madonna, Michael Jackson, Prince, George Michael, The Cure, Phil Collins, Tears for Fears, Duran Duran, The Smiths, OMD, Falco entre tantos outros.

Eis que o DJ dava o alerta: 17:25, “Don’t You Forget About Me” (Simple Minds) era o sucesso que antecedia aos 30 minutos de baladas. Yes, nós tínhamos baladas!!!

Os garotos com os hormônios ensandecidos - e espinhas renitentes - tiravam o suor dos rostos, mastigavam absurdas quantidades de Halls (tinha que ser de cereja) porque era chegado o clímax da tarde: se aproximava o momento de beijar na boca.

E assim, embalados por Cindy Lauper, Rod Stewart, Spandau Ballet, Carly Simon etc. os meninos abordavam as meninas com o clássico “quer dançar comigo?”. Era feio uma menina abordar um menino. Isso era “inaceitável”. Não rolava.

Eu, pessoalmente, a cada 8 ou 10 “nãos” recebia um extasiante “sim”. E dançávamos meio de longe a princípio, e o mundo poderia até mesmo explodir naquela hora...

Se nos aproximávamos um pouco mais durante a dança o meu coração batia em desespero. Quando ela deitava no meu ombro era um indício de sucesso. Em seguida vinha o enorme contorcionismo do pescoço, para ver se conseguia um beijo - e assim “salvando” a semana que se iniciava, como o importância do hidrogênio aos foguetes.

Relembrando disso tudo hoje, vejo agora o quanto fazia sentido a letra da profética canção “Forever Young” (Alphaville), que sempre tocava.

Por algum motivo que eu desconheço, mesmo quando dava certo, o casal de afastava após uma única música dançada, que levava em média 3,6 minutos.

Em outras palavras: dos 10.080 minutos que compõem uma semana inteira do calendário gregoriano da translação do planeta Terra de 365 dias esses 3,6 minutos eram breves e ao mesmo tempo eternos.

Terminadas as “músicas lentas” era a hora do rock nacional, com Léo Jaime, Kid Abelha, Marina Lima, Barão Vermelho, Capital Inicial, Titãs, Engenheiros do Hawai, Os Paralamas do Sucesso, João Penca e seus Miquinhos Amestrados, Ultraje a Rigor, Lobão, RPM e um número incrível de outras bandas/músicos que frutificavam no Brasil daquela época.

Ah, um ponto importante: não havia música baiana, nem pagode, nem funk carioca e muito menos sertanejo universitário. Aliás também não tínhamos smartphones, internet, Facebook, Instagram, whatssup, tinder e nem msn. A coisa era “bruta” e sobrevivemos sem traumas.

O final da matinée (19:00) não poderia ser diferente: escutávamos e cantávamos uníssonos (com as vozes engraçadas, em plena mudança decorrente da adolescência) a histórica “Tempo Perdido”, de nossa Legião Urbana, fomentada aqui na própria cidade. Era quase como um hino, uma canção de despedia da infância, o prenúncio da idade adulta que se avizinhava.


Era como ouvir o Manfredini nos dizendo “vai para casa, moleque, amanhã tem aula cedo, força sempre” (como ele próprio escreveu em uma carteira minha emborrachada da Company (das que tinha velcro) em certa ocasião, mas isso já é outra história para um outro dia.

Íamos para casa. O pessoal da asa sul comia sanduíche no Sky’s, o pessoal da asa norte frequentava o Giraffa’s. Hora de contar mentiras, de exagerar sobre o “score” dos beijos trocados e de rir dos que “levaram toco”.

Essa era a minha tarde de domingo há 32 anos. E “nem foi tempo perdido”.


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