SUA EXCELÊNCIA, O PROFESSOR DO ENSINO BÁSICO

Por HAMILTON GONDIM

Coluna Mundo em Transformação


É isso: Professores não são pessoas comuns e pessoas comuns não são Professores. Por favor, não escolha ser Professor até que você esteja certo e preparado pra isso.

(Primeira Ministra da Alemanha Angela Merkel)¹


Professores na Alemanha recebem os maiores salários do país. E quando juízes, médicos e engenheiros reivindicaram à Chanceler Ângela Merkel, que é doutora em Física, equiparação salarial, ela respondeu: “Como eu posso comparar vocês com quem ensinou vocês? Essa é a diferença.


Algo tão simples assim deveria ser suficiente para mudança de mentalidade no nosso país.


Além de qualificação docente, em seu sentido amplo, a motivação também é primordial para garantir um ensino de qualidade, pois profissionais altamente qualificados, porém desmotivados, tendem a fazer um péssimo trabalho educacional. A motivação do profissional da educação, por sua vez, depende de uma série de fatores intrínsecos e extrínsecos.

Deve-se destacar o grau de conscientização da necessidade de um bom desempenho e da importância de suas funções pedagógicas nos diversos ambientes, bem como o respeito aos interesses e habilidades de cada um. É fundamental que se disponha de profissionais da educação comprometidos com a missão/visão da instituição de ensino e que seja despertado o interesse pelo enfrentamento dos desafios educacionais, principalmente em se tratando dos menos favorecidos, pois essa pode ser sua única chance de melhorar de vida.

Quanto aos fatores extrínsecos, ressaltam-se os seguintes: salário; perspectiva de uma boa carreira do magistério que mostre a facilidade e seriedade das regras da progressão funcional; reconhecimento institucional; e o grau de participação em todo o processo educacional.

Quando se fala em salário não se deseja fazer referência apenas ao valor pecuniário absoluto, mas, principalmente, deseja-se levar em consideração o sistema de valores que ele representa, quando comparado a outros setores da instituição e da sociedade. É inadmissível a continuidade da perda persistente do prestígio do docente e de sua posição relativa na sociedade que vem ocorrendo há quase meio século. No passado, um professor estadual do ensino médio no Ceará (do Liceu de Fortaleza), por exemplo, tinha tanto prestígio na sociedade local, e era remunerado tanto, quanto um desembargador da justiça. Hoje, um professor universitário é desprovido de riquezas materiais e de prestígio social e suas entidades de classe não têm sido capazes de reconquistar o respeito da comunidade.

A sociedade brasileira exige muito da classe dos professores, sem oferecer as condições mínimas de formação e de aperfeiçoamento. Em termos de qualificação do corpo docente, é requerido do professor que possua conhecimento e formação técnica e científica na área de atuação; tenha predisposição para formação continuada; seja possuidor dos princípios humanísticos que levem à compreensão do contexto histórico, social e ideológico, sabendo interagir com os discentes; tenha comprometimento com a filosofia básica da educação; compreenda a inserção do processo educacional na globalização e no contexto local; seja iniciado na pesquisa científica, com conhecimento do método científico e com produção científica na área; tenha capacidade de criar condições de motivação para que o estudante tenha o gosto pelo pensar crítico, criativo e reflexivo por meio da leitura e da pesquisa; possua experiência prática profissional; entenda os princípios de ensino/aprendizagem, ou seja, da participação do aluno, utilização de novas tecnologias, capacidade de detectar, analisar e interpretar indicadores externos das concepções e representações dos alunos; tenha capacidade de raciocínio analítico, lógico, formal e prático, que possibilite análise de situações envolvendo uma visão global; empatia e capacidade de comunicação e de solução de confrontos e conflitos; flexibilidade, autocontrole, automotivação e ritmo de trabalho; e seja engajado na busca por um processo de ensino inovador.

Ou seja, a sociedade espera do professor que seja um super-homem ou uma supermulher, sem lhe oferecer as condições mínimas de boa formação, salário e prestígio social compatíveis com suas nobres funções.

O docente do sistema estadual de ensino, dadas as condições das escolas melhor localizadas (e dos alunos), com frequência considera castigo sua lotação numa escola da periferia. Assim, os únicos professores com que uma escola de um bairro distante do centro da cidade ou da zona rural pode contar são aqueles que possuem formação apenas de ensino médio (quando muito), moram pela redondeza e possuem usos e costumes similares aos dos alunos. O professor com nível universitário, ou mesmo com mestrado ou doutorado, com mais experiência didática e melhor preparado para a cátedra, prefere ficar nas escolas melhor localizadas, com alunos menos carentes, ou, o que ainda se mostra mais comum, na tecnocracia da secretaria de educação.

O grande paradoxo da educação pública brasileira está no fato de que os talentos vão para os locais onde são menos requeridos. Onde mais se necessita de uma compensação educacional é onde menos se dispõe dos recursos apropriados.

O que esperar desse sistema educacional público como provedor de condições de superação dos desequilíbrios sociais existentes? Como exigir que a educação promova melhorias nas condições sócio-políticas e econômico-culturais de tal meio?


1 Pronunciamento de Angela Merkel, Primeira Ministra da Alemanha no site: https://chat.whatsapp.com/6NCFHxgdzXF4dwNWUcotvy:


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