TODOS OS NOSSOS HOJES

Por ANA LUISA MOTA

Coluna Leitura Obrigatória


E não havia mais ninguém que pudesse fingir que nada estava acontecendo, fechar os olhos e tapar os ouvidos, enfiar a cabeça embaixo do travesseiro, não havia.”

(Natalia Ginzburg – Léxico Familiar – 1963)

Tutti i nostri ierie. "Todos os nossos ontens". Obra da escritora neorrealista italiana Natalia Ginzburg, que faz parte de um seleto grupo de autores italianos do pós-guerra inflamado por ideologias antifascistas. Sua narrativa expressa uma realidade crua, simplista e sentimentalista de seus personagens que são desenvolvidos dentro de um contexto real e marcante, e que tem a segunda guerra mundial e o fascismo de Mussolini como panos de fundo.


A autora, que sentiu na pele os anos opressivos do fascismo em seu país, e se viu envolvida com o seu marido na resistência ao regime fascista e à ocupação nazista, expõe em sua obra, através de personagens fictícios, a memória real e íntima de sua família, que era formada por judeus, e que lutaram incansavelmente contra Mussolini e Hitler.


Durante a leitura, é sempre bem sugestiva a presença da guerra como um trauma irreparável, mas nunca rouba o protagonismo das ações e sentimentos cotidianos dos personagens, e nem da dinâmica entre familiares, amigos e vizinhos, que são narrados no livro como personagens de um documentário histórico de um coletivo tão vivo presente na memória da autora até o ano de sua morte, em 1991.


Natalia Ginzburg consegue com uma narrativa singular e emocionante, priorizar o convívio diário de duas famílias vizinhas, uma pobre e outra rica, e todas as ações e sentimentos que as envolvem, como suas alegrias, brigas, medos, decepções, separação, morte, nascimento, cotidianos normais que não cessaram com a guerra…


A exposição da realidade nua e crua de personagens com sentimentos verdadeiros enquanto acontece no mundo uma realidade ainda mais cruel. Uma característica literária de Ginzburg em todas as suas obras.


Acredito que se a autora fosse viva e retratasse em obra o que estamos vivendo hoje no mundo, não protagonizaria o vírus, e sim, retrataria, com uma narrativa bem realista e sentimental, os nossos medos, preocupações, a separação dos parentes e amigos em isolamento social, as incertezas sobre o nosso futuro, a ansiedade ao retorno da vida normal, as brigas dos familiares em casa, as conversas por videoconferências, as lives assistidas, enfim, a pura realidade dos nossos hojes.


Futuramente, iremos também revisitar nossos hojes assim como Natalia Ginzburg fez em 1952, quando dez anos depois de viver e sentir as consequencias de um momento histórico, triste e marcante, lançou essa obra tão realista e sincera, para que os sentimentos não fossem jamais esquecidos.


Que possamos também, no futuro, revisitar todos os nossos hojes, ainda mais fortalecidos, mais conscientes da nossa obrigação como ser humanos e lembrarmos desse momento atual como um ensinamento para sermos pessoas melhores. E que os sentimentos dos nossos hojes jamais sejam esquecidos em nossos amanhãs.


Que tal você aproveitar esse momento de pandemia para relembrar outro momento histórico marcante e aprender com os personagens dessa bela história italiana como sobreviver ao caos e construir uma rotina mais humana e fraterna?


A obra “Todos os nosso ontens” é sim uma leitura obrigatória.


"E todos os nossos dias passados iluminaram os tolos ...

O caminho para a morte empoeirada."

(William Shakespeare - Macbeth)



TODOS OS NOSSOS ONTENS – NATALIA GINZBURG

1952 – Giulio Einaudi Editora

2020 - Publicado no Brasil por TAG Livros em parceria com a Companhia das Letras

Tradução: Maria Betânia Amoroso

www.taglivros.com

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