Triste saideira para a memória carioca

Atualizado: Fev 17

Por LEO LADEIRA

Tradicional Bar Luiz corre risco de fechar as portas


Entrou água no chope de um dos bares mais tradicionais do Rio! Ou pelo menos quase entrou! Fundado há 132 anos, o Bar Luiz, na Rua da Carioca,  está correndo sério risco de fechar as portas para sempre! A notícia do encerramento das atividades do estabelecimento foi dada no início desta semana pela proprietária, Rosana Santos. O motivo? Dívidas e a drástica redução da clientela, seja pela crise econômica ou por medo da violência - se em outros tempos o restaurante encerrava o expediente à meia-noite, agora a casa fecha às 16h.  


O anúncio do término das atividades levou centenas de pessoas a procurarem o bar nesta semana. A casa precisou até da ajuda de funcionários de um concorrente da Tijuca para dar conta da freguesia. Teve até fila na porta do restaurante, algo que não se via há tempos! Uma roda de samba está marcada para este sábado (14), data anunciada para o fechamento. A proprietária recebeu uma oferta para comprar o Bar Luiz, ainda em negociação. Seja qual for a resolução, que o histórico estabelecimento não desapareça!     


História - De Adolph a Luiz 


Fundado em 1887 por um petropolitano filho de suíços de nome Jacob Wendling, o Bar Luiz chamava-se inicialmente Zum Schlauch e funcionava na Rua da Assembleia, nº 10. Em 1901, o bar mudou para o número 105 da mesma rua e passou a se chamar Zum Alten Jacob, em homenagem a seu fundador. A história da casa mudaria quando um jovem descendente de alemães chamado Adolph Rumjaneck foi contratado para trabalhar como caixeiro. Depois ele passaria a gerente, e, em seguida, a proprietário do restaurante, que teve então seu nome mudado para Bar Adolf. Em 1927, o estabelecimento seria transferido para o atual endereço, na Rua da Carioca, nº 39. Na época da Segunda Guerra Mundial, o bar quase foi depredado por estudantes em virtude de seu nome ser o mesmo do ditador alemão. A partir de então, prudentemente, a casa passou a se chamar “Luiz”, em homenagem ao dono à época, o alemão Ludwig Vöit.


Desde então, o Bar Luiz mantém a fama de oferecer um dos melhores chopes da cidade. Segundo os antigos funcionários, o segredo se dá na conservação do processo artesanal de servir a bebida. O salsichão com salada de batatas ou chucrute, o kassler (costeleta defumada), o croquete de carne e a linguiça branca também são muito apreciados pela clientela .


Frequentadores Ilustrese


Ao adentrar no amplo e bem iluminado salão do Bar Luiz, o visitante logo percebe que pouca coisa foi modificada com o passar dos anos. O clima de Rio Antigo é mantido pelas cadeirinhas austríacas, de madeira; pelos velhos ventiladores e pelo cabideiro que circunda todo o recinto. Ainda estão lá também o balcão de mármore, a claraboia e a barra com motivo geométrico. Pelas paredes nas cores bege e verde, reproduções de fotografias revelam antigas imagens da cidade e da história do próprio bar. O desenho executado por Ziraldo especialmente para o restaurante completa a decoração do ambiente, em estilo art-déco.


O Bar Luiz foi freqüentado pela fina flor da intelectualidade carioca (e brasileira). Nomes como Ary Barroso, Olavo Bilac, Sérgio Buarque de Hollanda, Floriano Peixoto, Albino Pinheiro, Braguinha, Sérgio Cabral, Jaguar; e sambistas como João Nogueira, Beth Carvalho e Martinho da Vila foram alguns dos clientes fiéis da casa nestes anos todos de funcionamento.


O estabelecimento é tombado desde 1985 pelo Instituto Estadual de Patrimônio Cultural (INEPAC), que protegeu todo o Conjunto Arquitetônico da Rua da Carioca, incluindo o Bar Luiz. Torçamos que essa história tenha um final feliz e que possamos brindar à memória dos velhos estabelecimentos comerciais da cidade! Nada de saideira!   



Fotos:

Leo Ladeira

Site Bar Luiz

Tom Le Mesurier Lonely Planet