UM CAMPO DE CONCENTRAÇÃO NO BRASIL

Atualizado: Mar 4

Por ANA LUISA MOTA


"A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente."

(O Alienista – Machado de Assis)


Em 2009, durante uma entrevista com um psiquiatra, a jornalista investigativa mineira, Daniela Arbex, tomou conhecimento de um livro, editado pelo Governo do Estado de Minas Gerais (2008), que continha fotos altamente impactantes do jornalista fotográfico, Luiz Alfredo, sobre um manicômio brasileiro. Fotos essas que haviam sido divulgadas pela Revista Cruzeiro, em 1961. Esse manicômio se chama Hospital Colônia e localiza-se na cidade de Barbacena-MG, inaugurado em outubro de 1903.

Daniela ficou muito impactada ao olhar as imagens dos internos no hospital, e a sua primeira impressão foi como se estivesse vendo fotos de um campo de concentração nazista. Mas a autora, em entrevista, revelou que ficou ainda mais impactada por desconhecer uma instituição tão tenebrosa que existia na cidade ao lado, e, principalmente, desconhecida pela maioria dos brasileiros.


Foi a partir daí que a jornalista buscou mais informações a respeito do Hospital Colônia, e após centenas de entrevistas e viagens, apresentou uma série de reportagens no jornal a Tribuna do Norte com as entrevistas dos sobreviventes. Pela primeira vez, em oito décadas, eles tiveram a oportunidade de relatar tudo o que sofreram dentro do Colônia, e muitos deles, sem necessidade nenhuma.

Após a grande repercussão das matérias publicadas, e dos vários prêmios recebidos pela série de reportagens, Daniela resolveu, então, buscar mais informações sobre esse tenebroso fato histórico. E depois de um ano de investigação jornalística, Arbex lançou em 2013 o seu livro de estreia “Holocausto Brasileiro”, pela Geração Editorial, e que já se encontra em sua 20ª edição. O livro foi eleito Melhor Livro-Reportagem do Ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (2013) e segundo melhor Livro-Reportagem no prêmio Jabuti (2014). Com mais de 200 mil exemplares vendidos no Brasil e em Portugal, a obra ganhou as telas da TV em 2016, no documentário produzido com exclusividade para a HBO, com exibição em mais de 40 países.



Jornalistas famosos, nos anos 60 e 70, fizeram reportagens denunciando os maus tratos. Mas nenhum deles, como fez Daniela Arbex, conseguiu contar a história completa, sob a ótica dos sobreviventes. O que se praticou no Hospício Colônia foi um genocídio de 60 mil pessoas que não pediram para morrer. Pode ser sim considerado um holocausto praticado pelo Estado, com a conivência de médicos, funcionários e da população.


Em oito décadas de funcionamento, milhares de pessoas não aceitas pela sociedade, ou os “indesejados sociais”, como classificou a autora, passaram a cumprir sentença perpétua no Hospital de Barbacena. Em sua maioria, haviam sido internadas à força. Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava ou que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas violentadas por seus patrões, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Crianças tímidas ou muito brincalhonas. Pelo menos 33 eram crianças.

Quando chegavam ao hospício, suas cabeças eram raspadas, suas roupas arrancadas e seus nomes descartados pelos funcionários, que os rebatizavam. Comiam ratos, bebiam água do esgoto ou urina, dormiam sobre capim, com baratas e moscas passando sobre eles, eram espancados e violados diariamente. Nas noites geladas da Serra da Mantiqueira, eram deixados ao relento, nus ou cobertos apenas por trapos. Pelo menos 30 bebês foram roubados de suas mães. As pacientes conseguiam proteger sua gravidez passando fezes sobre a barriga para não serem tocadas. Mas, logo depois do parto, os bebês eram tirados de seus braços e doados.


Alguns morriam de frio, fome e doença. Morriam também de choque. Às vezes os eletrochoques eram tantos e tão fortes, que a sobrecarga derrubava a rede do município. Nos períodos de maior lotação, 16 pessoas morriam a cada dia. E ao morrer, davam lucro. Muito lucro. Entre 1969 e 1980, 1.853 corpos de pacientes do manicômio foram vendidos para 17 faculdades de medicina do país, sem que ninguém questionasse. Quando houve excesso de cadáveres e o mercado encolheu, os corpos foram decompostos em ácido, no pátio da Colônia, diante dos pacientes, para que as ossadas pudessem ser comercializadas.

Mas quem são realmente os loucos? Segundo Daniela, instalou-se no país a “loucura institucionalizada e comercializada” e muito bem aceita pelos governos, pela sociedade, pela classe médica, pelos comerciantes, ou seja, todos lucravam quando o “trem de doido” parava na Estação Bias Fortes para despachar os “loucos indesejados” da sociedade. Ao olhar a foto dessa estação, a gente lembra imediatamente da linha do trem que levava os judeus para os campos de concentração.


Abrindo um parênteses aqui... A expressão “trem de doido” foi criada pelo escritor Guimarães Rosa e incorporada ao vocabulário dos mineiros para definir algo positivo, mas à época, marcava o início de uma viagem sem volta ao inferno. O termo também foi citado em sua obra “Primeiras Estórias” (1962) no conto “Sorôco, sua mãe e sua família”. Guimarães Rosa, natural de Cordisburgo-MG, além de ser escritor, novelista, romancista e contista, era um grande médico brasileiro. Ele, em 1933, trabalhou brevemente como médico no Colônia e viu os horrores ali cometidos.


O conto “Sorôco, sua mãe, sua filha”, fala de um trem com grades na janela que “ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre”: a mãe e a filha, ambas com problemas mentais, de um homem viúvo chamado Sorôco.


“Sorôco. Tomara aquilo se acabasse. O trem chegando, a máquina manobrando sozinha para vir pegar o carro. O trem apitou, e passou, se foi, o de sempre. Sorôco não esperou tudo se sumir. Nem olhou. Só ficou de chapéu na mão, mais de barba quadrada, surdo - o que nele mais espantava.”

(Guimarães Rosa, 1962)

A ficção, infelizmente, se baseou numa triste realidade presenciada pelo autor. A parada na estação Bias Fortes era a última da longa viagem de trem que cortava o interior do país e que levava “loucos” de todo canto do Brasil. Quando a locomotiva desacelerava, já nos fundos do Hospital Colônia, os passageiros começavam a se agitar. Acuados e famintos, esperavam a ordem dos guardas para descer, seguindo a fila indiana na direção do desconhecido. Ou para a sua possível morte. Muitos nem sequer sabiam em que cidade tinham desembarcado ou mesmo, o motivo pelo qual foram despachados para aquele lugar.


Daniela Arbex ainda relata em seu livro a luta intensa para implantar no Brasil a reforma psiquiátrica. Em 1989, um deputado federal de Minas Gerais apresentou no Congresso Nacional o Projeto de Lei nº 3.657, propondo a regulamentação dos direitos da pessoa com transtornos mentais e a extinção progressiva dos manicômios no país. Até aquele momento, ainda prevalecia o Decreto Presidencial 24.559, baixado por Getúlio Vargas, em 1934. O projeto do então deputado mineiro, Paulo Delgado, foi aprovado com algumas modificações em 2001, após doze anos de tramitação. Estava implantada, portanto, a primeira lei de desospitalização do país, a Lei Federal 10.216. E começou a partir daí a luta antimanicomial, com mudanças significativas para reformar o modelo psiquiátrico brasileiro.


Mas o progresso é lento, como se sabe. Uma inspeção realizada ano passado, em 40 hospitais psiquiátricos de 17 estados do país, identificou uma série de violações de direitos dos pacientes. A inspeção observou, por exemplo, que 82% das unidades mantêm pacientes como moradores, em internações de longa permanência. Ao todo, foram encontradas 1.185 pessoas nessa condição. De acordo com os especialistas, a prática fere a Lei Federal nº 10.216/2001, aquela criada pelo deputado mineiro, pois os pacientes não podem permanecer nos hospitais. Pelo jeito, a luta antimanicomial continua.


Por todos esses motivos relatados aqui, de forma tão extensa, mas necessária, e pela exigência do tema e pela relevância da obra, é que se faz obrigatória a leitura do livro “Holocausto Brasileiro”, de Daniela Arbex, pois trouxe ao conhecimento e salvou do esquecimento um capítulo tenebroso da história do Brasil. Como mesmo disse a jornalista, escritora e documentarista brasileira, Eliane Brum, no prefácio: “Agora é preciso lembrar. Porque a história não pode ser esquecida. Porque o holocausto ainda não acabou.”


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Obra:

Holocausto brasileiro: Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil

Arbex, Daniela

Geração Editorial - São Paulo - 1ª Ed. - 2013

Link para compra:

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Fotos de autoria de Luiz Alfredo que estão no livro:

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