Uma Argentina mais pobre

Atualizado: Fev 17

Por CÉLIA LADEIRA MOTA


O resultado imediato das primárias na Argentina, realizadas no domingo, dia 11 de agosto último, foi o empobrecimento do país vizinho, com o dólar sendo vendido a 70 pesos e a taxa básica de juros chegando a 67%. O estremecimento chegou ao Brasil, com a queda na nossa Bolsa de Valores e com a venda do dólar ultrapassando quatro reais. Como interpretar tamanho abalo econômico?


Para o presidente Maurício Macri, os resultados das primárias, que deram uma vantagem de 15 por cento ao candidato Alberto Fernandez, apoiado por Cristina Kirschner, foram um indício claro de que a população quer mudanças na economia argentina que o governo não foi capaz de realizar. Pior: bater às portas do FMI foi um pecado capital de Macri, que a população argentina não perdoou. Muitos consideraram um suicídio político. No entanto, como conciliar a necessidade de mudanças econômicas com a volta de um grupo político identificado com o passado e com iguais erros na condução econômica do país? Este é o dilema que o povo argentino terá que enfrentar em outubro, nas eleições para a presidência.


As primárias – Na Argentina, as eleições presidenciais são precedidas de uma prévia das tendências do eleitorado. São chamadas de ‘paso’, sigla que significa primárias abertas, simultâneas e obrigatórias. O processo, criado em 2009, tem a intenção de eliminar candidatos com pouco apoio. As chapas que obtêm menos de 1,5% dos votos nessa etapa não podem concorrer no primeiro turno. As eleições, em 2019, serão realizadas em 27 de outubro, no primeiro turno, e em 24 de novembro, no segundo turno.


Caso a tendência de vitória se mantenha em outubro, o candidato do movimento kirschnerista, Alberto Fernandez, precisará ter mais de 40 por cento dos votos com um mínimo de 10 pontos percentuais de vantagem sobre Macri.


O kirschnerismo – Parece ser uma velha tradição latino-americana o apoio popular a candidatos políticos que são identificados com uma auréola de ‘salvador da pátria’, aquela figura de pai capaz de fazer milagres e produzir a felicidade geral da nação, não importa quantos problemas econômicos enfrenta ou como foram criados. O termo ‘kirschnerismo’ nos remete ao ex-presidente Kirschner, marido de Cristina Kirschner, que o substituiu no poder.


Significa uma continuidade do peronismo, com o mesmo populismo que traz de volta os grupos corporativos que se revezavam em frente da Casa Rosada com suas manifestações.

O que esperar desta volta ao passado? Os índices econômicos, mais que os políticos, nos mostram um futuro não muito fácil para o povo vizinho. Resta esperar outubro.