VIAJANTE, MUITO CUIDADO

Atualizado: Out 26

Por ANDRE R. COSTA OLIVEIRA

Coluna Sapere Aude

Viajante, jamais subestime a força e a majestade da floresta amazônica!


Não se deixe seduzir por cores e por bichos e por floras diferenciadas, que exalam o perfume mágico, que nos convida às aventuras impulsivas; ao desejo insano de nos lambuzarmos em alguma coisa, e de perecermos engolidos num extenso regozijo orgástico.


Cuidado para que os mitos e as lendas das extensas matas não transformem a você próprio em um mero figurino naquele universo verde, enraizado às maiores profundezas de seu solo, para todo o sempre, sendo alimentado e ainda alimentando com a sua seiva o ecossistema dos sentimentos.


Não se deixe iludir pela vastidão do mato que parece infinito, trazendo às nossas mentes descuidadas a ideia de que tudo, em derradeiro, também seja infinito - inclusive as coisas boas - e as horas de absoluto desespero.


Mantenha-se atento aos temperos, ao sabor dos peixes e dos frutos, e às tezes em tonalidade inimitável de mulheres e de homens que os pescam e os colhem, e que nos embalam com histórias fantásticas de noite, encobertos pelo manto decorado das estrelas indecisas entre os hemisférios do planeta Terra.


Temperança e comedimento ao se anestesiar com o jambú sempre ardiloso; higidez absoluta ao respeitar com a veneração dos deuses a variedade das misteriosas infusões que nos oferece a extensa floresta; e, mais do que tudo nesse mundo: viajante, viajante, tenha o discernimento certo quando, ainda insone e transpirando pelo coito de anterior instante, observar à luz de Manduka, pela fresta de sua janela, o dorso nu da mulher que você ama tanto, indecentemente, depravada e arrebatadoramente; a mulher que um dia se forjou no barro e nas areias dos rios gigantes, oceânicos, tingida em jenipapo e em urucum puríssimo, com a força da madeira da copaíba, a delícia do cupuaçu-do-mato e o odor inebriante do jasmim-manga!


Tudo isso ao som do canto do uirapuru, pequenino e orgulhoso quando a floresta fica em silêncio para escutá-lo: nessa hora, viajante, você vai achar que já morreu e que chegou ao paraíso.


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