VIVENDO, APENAS VIVENDO...

Por ROBERTO NAVARRO

Coluna Estrada das Lágrimas

Antônio era um homem de meia idade que vivia há mais de 15 anos na mesma calçada. A primeira vez que o vi foi de longe. Foi me pedido uma avaliação mesmo que de longe, pois o Antônio não conseguia realizar contato. Vou descrever como vi Antônio.


Eu fiquei na esquina da rua onde ele “morava”. Era um homem com trajes surrados cabelo comprido e barba longa grisalha. Era o que me veio à cabeça no momento... um cara monocromático pois estava inteiro amarronzado, ou seja, aparência de que não tomava banho há meses, então era uma mistura de poeira, fuligem, suor... usava aparentemente um paletó, eu digo aparentemente porque neste estado “monocromático” era difícil distinguir até a roupa. Ele estava chegando de algum lugar e foi se acomodando numa pequena tenda montada com plástico preto de lixo presa na parede. Entorno havia restos de comida e pontas de cigarro. Falava sozinho, mas não dava para entender, mas se percebia que eram falas e gestos ríspidos.


Resolvi passar pela calçada e ver se ele fazia algum contato, mas apenas me olhou de forma intimidadora e apenas falei bom dia e passei. Não respondeu e nem se levantou. Esse foi o primeiro contato de muitos que no futuro eu iria fazer com este paciente.


E assim se seguiu por alguns meses, eu ou alguém da equipe sempre passando por perto e visitando Antônio mesmo que de longe. Havia um condomínio bem em frente onde Antônio morava e pessoas de lá começaram a realizar reclamações para os órgãos públicos com denúncias que Antônio gritava a noite, falava palavrões. Os moradores tinham medo de passar na calçada, temiam a reação de Antônio. Teve momentos de ele agredir verbalmente e ser atacado fisicamente, enfim.... estavam acontecendo várias situações onde Antônio corria risco de sofrer danos a sua integridade física ou causar agressão à outras pessoas, então foi necessária uma internação compulsória e assim foi feito.


Após 30 dias, fomos visita-lo no Hospital e me assustei. Entrei no quarto e vi um Senhor de cabelo grisalho, barba feita, vestido com roupas limpas que me estendeu a mão e me cumprimentou com um sorriso. Conversamos um pouco e ele disse que queria ir embora do hospital, em seguida conversei com a psiquiatra que falou sobre Antônio. Ela disse que ele estava medicado e estava estável e que não iria melhorar mais do isso (para quem viu ele na rua como eu, já achei ele normal) mas conversando um pouco com ele a gente percebia que em alguns momentos haviam delírios na fala.


A psiquiatra falou que não poderia ficar com ele por muito tempo, teríamos que encontrar algum local mais adequado. Essa era a terceira internação do Antônio, porém dessa vez havia um envolvimento de toda rede de saúde e contatos frequentes sempre antes de tomar uma decisão. Foi dessa vez que conseguimos obter, através da Policia Civil, seu nome e um pouco de sua história.


Sabíamos que não havia um lugar “ideal” para Antônio, pois apesar de todos os recursos e equipamentos que existem, nenhum local adequado para receber pessoas com transtorno mental grave. E foi oferecido o que se tinha... um albergue, e como era de se esperar ele não ficou.


Voltou para o que ele chamava de sua casa, aquela rua em frente ao condomínio. Fomos monitorando com visitas regulares e por meses o encontramos limpo, conversando normalmente, lendo a bíblia que havia ganhado, mas se recusou a tomar medicamentos e com o passar do tempo o contato foi ficando mais difícil, foi deixando de tomar banho e voltando àquela vida anterior, as reclamações do condomínio voltando a virar rotina...


Infelizmente assim como Antônio existem outros tantos com transtorno mental grave e crônico que vivem pelas ruas e que a exemplo dele poderiam se tratar e manter uma vida mais digna, porém não há lugar específico para essas pessoas. São pessoas sem família e com transtorno que necessitam de um local onde podem ter liberdade, mas ao mesmo tempo um cuidado. Na rua, são livres, porém sem medicamentos, vivem vagando de um lado para outro numa rotina insana, correndo riscos o tempo todo.


Conheça BETO NAVARRO e leia outros artigos de sua autoria na Coluna Semanal Estrada das Lágrimas

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